quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Conto: Tiragosto saboroso

Faz exatas nove horas que estou aqui, às vezes eu faço isso, ficar observando o dia se acabar e a noite surgir. O sol se pondo em Brasília é sem dúvida o mais bonito que já vi, o céu é inundado por raios avermelhados, como se estivesse em brasas e o próprio inferno se abrisse dando uma dica de que tempos piores estão por vir. Ele só perde para a Lua que nasce gigante, vermelha e tentadora como o sangue de uma adolescente, trazendo o esplendor de mais uma noite cheia de surpresas.

Ao longe, nas alturas, vejo pequenas asas negras sobrevoando o Congresso Nacional, voando em círculos, observando calmamente o movimento desordenado das pessoas e os carros parados no engarrafamento. Demônios alados, carniceiros vorazes, camuflados pela distância em urubus. Por horas, de cima do edifício do Banco Central, o ponto mais alto da cidade, observo o movimento e fico imaginando se o mundo realmente sairá dos eixos e se nós, os seres das trevas, um dia decidiremos atacar os humanos. Há séculos temos vivido um equilíbrio frágil, disfarçados na escuridão, mas presentes em todos os lugares.

As conversas que escutei nos últimos dias dizem que um grande grupo se prepara para quebrar o balanço. Infelizmente esta situação vai gerar o caos e uma possível guerra poderá ocorrer. A minha preocupação é que apesar de sermos muitos, os humanos são infinitamente mais numerosos, e diferente de séculos atrás, estão mais preparados e conscientes de seu poderio de ataque e defesa. Possuem mais armas que nós e em pouco tempo podem nos subjugar. Tenho que pensar o que farei, qual partido devo tomar? Esta talvez seja uma das minhas decisões mais difíceis desde que fugi da Europa e vim para o Brasil.

De minha posição, eu vejo com clareza o caos que se encontra a humanidade, banida de compaixão e repleta de violência e corrupção. Os humanos se mostraram, senão iguais, piores que nós. Talvez seja esta a hora de uma virada, uma limpada geral nesta sujeira. Talvez tenha chegado a hora de parar com a evolução desenfreada do conhecimento humano e com ele o risco de sermos descobertos. Talvez esta seja a janela da oportunidade para jogarmos o mundo no caos novamente e tomarmos o poder que nos foi usurpado.

Só sei que estas questões são complexas e devem ser estudadas mais profundamente. Temo apenas que não tenhamos tempo para isso. Tentarei marcar uma reunião com o conselho para amanhã à noite a fim de discutirmos o que fazer. Penso que talvez seja melhor continuarmos como estamos, vivendo na surdina dos acontecimentos e nos banqueteando da luxúria e cobiça desse povo medíocre. Para que jogarmos tudo fora? Já não basta praga que está nos consumindo como uma lepra, ainda nos arriscaremos a isso, perecermos sob fúria implacável da índole humana?

Se existe uma coisa que eu aprendi nestes últimos duzentos anos é que os humanos são mais perigosos do que pensamos e se estiverem em perigo, sua fé inabalável na ajuda divina os levará a limites extremos. Se bobearmos, no fim, nada conseguirá fazê-los desistir de sobreviver, e nada, nada mesmo os fará aceitar uma vida de escravidão e sofrimento. Eu sei que uma coisa está bem clara em suas mentes: Eles vieram para dominar o mundo e aqui ficarão, sob o comando e a anuência de seu Deus.

Perdido em meus pensamentos, enquanto apreciava a vista da cidade agora já iluminada pelas luzes dos edifícios, das lojas e pelo movimento frenético dos carros, vi ao longe, uma pequena jovem andando em meio aos prédios e ruas já desertas do Setor Bancário, sozinha e descuidada, provavelmente alguém que havia trabalhado até um pouco mais tarde e procurava seu carro estacionado em algum lugar. Uma vítima perfeita para àqueles que vivem da morte. Uma alma desguarnecida de cuidados e, com muita sorte, repleta de ternura e sentimentos puros. Um prato cheio para o grupo que a estava cercando.Eles se seguem pelas laterais dos prédios, grudados nas janelas, como feras a caça de sua presa. Um passo de cada vez, bem devagar acompanhando o caminhar despreocupado da menina. Em cada esquina, seus movimentos aceleravam, de forma que somente olhos treinados e potentes podem enxergar. Seus movimentos são tão rápidos que parecem sombras negras, esticadas pelo vento da noite. Este ataque, bem no início da noite, é um sinal claro de que não estão mais preocupados em serem notados. Eles irão se alimentar de seu corpo frágil, tomar seu sangue e comer sua carne tenra. Isso é um péssimo sinal e eu não posso permitir que ocorra.


A lua escarlate parece abençoar a carnificina que está por ocorrer. Fico de pé, no topo do prédio, e sinto minhas veias pulsar descontrolas, minha pele queimar e meus olhos se tornarem vermelhos com o sangue que circula acelerado por todo o meu corpo. É como se uma descarga de adrenalina gigante houvesse me invadido. Nessa hora, após uma respirada mais profunda, decido pular. Dou um passo para frente e salto, de pé, olhando os 35 andares de queda livre. Pouco antes de tocar o chão, encolho as pernas, giro, apoio os pés nas janelas e empurro para frente, giro de novo e então estouro o teto de uma Ford Ranger. Nesse momento começo uma corrida desenfreada para tentar alcançar a moça. Nem me dou ao trabalho de olhar para trás para ver se os seguranças do prédio me viram.

Eu podia sentir seu perfume a uma quadra de distância e ver sua aura emanando uma cor rosa clara, pureza. Ela era baixa e magra, com o corpo de uma menina de dezesseis anos. Seus cabelos negros e compridos balançavam durante enquanto andava e eram jogados bem devagar para trás pela brisa quente da noite. Tenho que alcançá-la a todo custo.Em meu a minha corrida pude vê-la chegar na porta de seu carro, um pequeno e velho Uno Mille.
Ela então pareceu ouvir algo em suas costas, como um suspiro bem leve, trazido pelo vento. Olhou para trás mais que rapidamente e assustada, com o coração disparado, não viu nada. Respirou aliviada e olhou de novo para a porta de seu carro e um estrondo enorme foi ouvido, uma pessoa havia caído no teto do carro e os vidros se estilhaçaram, jogando cacos por todos os lados. O alarme disparou na hora e ela caiu sentada e horrorizada com o susto. Nenhuma palavra saiu de sua boca, pois quase desmaiou. Antes que pudesse colocar seus pensamentos em ordem, percebeu que algo estranho estava ocorrendo. O corpo em cima de seu carro começou a se levantar e sombras negras passavam em volta de seu corpo.
O corpo se levantou bem devagar, ficando primeiramente de joelhos e depois em pé com a cabeça abaixada. Usava roupas largas como uma batina de padre, rasgadas e de cor negra com costuras marrons nas laterais. Parecia um mendigo. Sua cabeça ainda estava coberta pelo capuz, mas dava para ver alguns fios do cabelo comprido e ensebado por baixo. O cheiro da praga penetrou minhas narinas e pude então ouvi-lo falar
— Silêncio menina e observe o que se passa ao seu redor.
Quando o capuz foi jogado para trás ela, estática, começou a gritar, a todos pulmões. A imagem do rosto daquele ser, de pé em cima do carro, era a própria face do inferno, seus dois olhos estavam costurados com barbantes e por todo rosto haviam pústulas infeccionadas e purulentas. O sangue escorria de alguns pontos. Em seguida ele desceu do carro como um raio e aproximou seu rosto bem perto do dela, seus lábios quase se encostaram. O hálito fétido era insuportável e suas palavras dolorosas.
— Não resista! Hoje você será nossa.

Em seguida ela viu os outros monges em sua volta, parados e sorrindo. Mais uma vez gritou, só que desta vez teve seu suplicio sufocado por um beijo apodrecido dado pelos lábios leprosos de seu algoz. Seus olhos permaneceram abertos como se chocados com o horror que se passava e então quando achou que iria desmaiar foi banhada por um jato mal cheiroso de sangue, que lhe molhou o rosto. Percebeu que um daqueles monstros havia sido cortado ao meio e suas entranhas estavam espalhadas pelo chão e seu sangue havia espirrado em jatos por todos os lados. Os outros dois procuravam ao redor o que havia ocorrido e assustados desapareceram em meio a uma nuvem de fumaça preta. Somente aquele que a segurava ficou parado, observando e tentando entender o que havia acontecido.

Ela então me viu, em cima de outro carro, segurando uma faca em cada uma de suas mãos e olhando fixamente para aquele monstro desfigurado. No outro segundo, como num piscar de olhos, viu o monge com as duas facas enfiadas em sua cabeça e um filete de sangue saindo de seus olhos costurados. Ela respirou profundamente e começou a chorar, agradecendo e colocando a sua cabeça em meus ombros.

— Por que choras menina?
— Porque você, meu anjo, vindo dos céus, me salvou e me deste a vida de novo.
— Pobre menina — falei olhando bem dentro de seus olhos — enganada você está.

Em seguida passei a faca em seu pescoço e a deitei bem devagar em meu colo, enquanto sugava o seu sangue, doce, jovem e muito saboroso pensei na reunião de guerra que teria com o conselho de vampiros. Ela então arregalou os olhos e tentou falar algo, mas suas palavras não mais saíram.

Um comentário:

Mario Carneiro disse...

Ae Brunão, variando nos temas, hein? Rsrsrs. Gostei da história, acho que vc está mais contido em suas descrições (uma de nossas "brigas", rs), dando uma boa idéia das cenas, mas sem sobrecarregar. Abraços!