sábado, 11 de dezembro de 2010

Pausa criativa



Pessoal, como já deu pra perceber eu parei de escrever, pelo menos por enquanto. Tenho tido muito trabalho e pouco tempo sobrando. Além disso, meu filho pequeno tem precisado de atenção especial nesses últimos meses. 

Aproveitei para fazer uma limpeza no blog, retirando todas as mensagens de publicidade e de conversa fiada. Restaram apenas os contos.

 







sábado, 14 de novembro de 2009

Conto: Sozinho




Mais um continho para encher o blog. Esse aqui eu mandei para o desafio de novembro da comunidade "Histórias de Terror" no Orkut.
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— Meu Deus, que dor de cabeça! Que ressaca é essa que tomou conta de mim? O pior é que não me lembro de ter bebido nada ontem. Pra falar a verdade eu não me lembro de muita coisa.

Alguns segundos se passaram até que tomasse coragem de abrir os olhos. Para sua surpresa, quando o fez, estava tudo escuro. Uma escuridão anormal, muito diferente da habitual. Tentou se levantar e bateu a testa com força.

— Caramba!

Abaixou devagar a cabeça. Só então entendeu que não estava mais no seu quarto. Esticou as mãos para cima e encostou no teto, que estava a apenas dois palmos acima de seu rosto. Sentiu a parede próxima ao seu lado esquerdo, e um pouco mais distante no direito. Bateu os pés e sentiu o fundo. Uma descarga de adrenalina percorreu seu corpo e dor de cabeça passou.

— Meu Deus, o que é isso? Socorro! — Gritou, chutou, bateu as mãos tentando se levantar, ou quebrar as paredes que o circundavam; só então parou e tentou se acalmar.

— Me enterraram vivo, só pode! Que merda é essa? — Sua mente girava de tanto nervosismo. Sem opção, ficou ali, parado, respirando profundamente até que o coração disparado voltasse ao normal.

— Tenho que pensar, permanecer calmo ... o que pode ter acontecido, o que eu fiz? Não consigo me lembrar de nada!

A dor de cabeça voltou, dessa vez com força total, bem atrás da orelha esquerda. Ao passar a mão, sentiu um galo enorme. Só então percebeu o motivo de sua amnésia. Será que fui assaltado e estou dentro do baú na sala de casa? Ou fui seqüestrado? Meu Deus e minha família? O que houve com eles? Os pensamentos foram, voltaram, e nada surgiu, só o medo e a escuridão; nenhuma lembrança. Será que me drogaram? Será que estou num pesadelo, meu Deus me ajude, por favor, me dê uma luz de esperança, me faça acordar.


Sem respostas começou a tatear o fundo de seu cubículo a procura de algo que pudesse ajudá-lo a sair dali. Sentiu próximo do teto um pedaço de mangueira e no fundo encontrou um pequeno cilindro. Uma lanterna! Mexeu nela até que conseguiu iluminar o ambiente.

— Obrigado meu Deus! — Agradeceu aliviado. Sua fé aumentou de novo. A crença naquele que tudo pode era o único porto seguro que conhecia.

Ao passar a lanterna pelos lados percebeu que estava preso em um tipo de caixa. Ao iluminar o lado esquerdo viu um vulto, deitado a seu lado, e isso quase o matou de susto. Com um grito alto e um pulo tentou fugir dali, um reflexo condicionado pelo pavor. Contudo, a única coisa que conseguiu foi machucar o joelho e bater a cabeça outra vez.

Como nada aconteceu, iluminou de novo aquele ponto e percebeu que na verdade, ali havia um espelho. Por um minuto, permaneceu imóvel tentando entender o motivo daquela porcaria estar lá. Só depois continuou a vasculhar o interior de sua prisão. Não encontrou nada.

Ouviu então barulhos, apenas alguns ruídos distantes. Talvez crianças brincando ao fundo? Isso era um bom sinal. Não estava enterrado tão fundo, quem sabe seus gritos poderiam ser escutados? Quem sabe aquela escuridão poderia indicar que estava de noite.

Tinha que pensar no que fazer, iluminou o teto e ficou olhando para o pequeno pedaço de mangueira preso na tampa. Pelo menos se chover um pouco, a água poderá entrar e matar a sede. Tenho certeza que vai chover, todo dia chove, pensou.

Por vários minutos, gritou por socorro até que finalmente desistiu. Não conseguia sequer decidir a respeito de apagar a lanterna, talvez essa fosse a melhor opção, já que ela poderia ser necessária mais a frente. A pancada na cabeça doía muito e a tontura incomodava. Resolveu então apagar a luz e rezar um pouco. Quem sabe outra providência divina ocorresse.

Ficou ali rezando por uma duas horas, sem que nada acontecesse. Nenhum barulho foi ouvido e nada ocorreu. O pensamento de ter sido deixado no meio do nada estava descartado, pois era possível ouvir os sons da noite, os grilos e os pássaros.

Foi então que num estalo se lembrou de todo o ocorrido. Uma agonia tomou conta e os gritos saíram de sua garganta, de forma incontrolável, assim como as lágrimas desceram, molhando a sua face com a dor e a tristeza. Acendeu a lanterna novamente e olhou bem dentro de seus próprios olhos, refletidos no espelho.

— Agora eu entendo vocês, seus desgraçados! Deixaram este espelho aqui para que eu morresse olhando para o meu próprio sofrimento. Que tipo de monstros são vocês? Por que eu? O que eu fiz para merecer isso? Meu Deus, por que eu, porque minha família? — O choro vinha do fundo de sua alma, afinal, eram muitas dúvidas, muitas questões a ser respondidas.

Ele ficou aqui, estático, de olhos fechados, imerso em pensamentos. Lembrou do exato segundo em que tudo começou, do som dos tiros sendo disparados e dos gritos de dor de sua esposa moribunda, ajoelhada, estuprada, ferida, chorando, chamando-o. Lembrou da risada ecoando nos corredores.

As horas passaram e o dia surgiu. Assim como a luz tomou conta da escuridão, para seu desespero o calor tomou conta do frio. Aquela época do ano era implacável, de dia o calor era sufocante e à noite o frio tomava conta de tudo.

Após algumas horas cozinhando, o suor já havia encharcado suas roupas e os sintomas de desidratação estavam aparecendo, a boca ressecada e o coração acelerado. O nervosismo e a sensação de desistência começaram a contaminar seu coração. Quando mais nenhuma esperança se fazia presente, o som de um motor funcionando o despertou.

— Socorro! — Por várias vezes gritou com toda a força de seus pulmões, até que ouviu duas pancadas no teto da caixa em que estava preso. Suas preces foram atendidas.

— Me tirem daqui. Socorro! Me ajudem! — Ao invés da tampa se abrir, água começou a pingar pela mangueira.

Ele bebeu sem parar; o tanto que conseguiu. Não podia se dar ao luxo de morrer de sede. Em seguida, começou a sentir um movimento. Era como se estivesse andando, sendo transportado para algum lugar. O estranho era o balançar que não parava. Para cima e para baixo, intermitente, infinito.

Ninguém mais apareceu, por horas os gritos ecoaram dentro da caixa, mas aquela pessoa não deu mais sinal de vida. O balanço era forte e cadenciado; ficar naquela condição era enlouquecedor. O enjôo quando surgiu, teimou em não mais ir embora. O próximo passo foi o vômito, incontrolável, repetitivo. Mas vomitar não era o problema, nem o cheiro de bílis. O que complicava era a desidratação. Como médico, ele sabia que a morte por desidratação era muito violenta, a pessoa sofreria horrores antes do fim.

A escuridão chegou mais uma vez, porém não era possível saber se era oriunda do caminhar do dia ou se apenas a luz fora apagada. O balanço continuava, assim como o desânimo. A possibilidade de nunca ser resgatado já passava pela sua cabeça. Somente a dúvida, sobre o porque de tudo aquilo estar acontecendo, é que persistia. Gritar já não era mais uma opção, não fazia mais sentido.

Ele acendeu a lanterna mais uma vez e olhou em volta. Seu reflexo estava muito ruim. Os olhos fundos e os lábios rachados. Definitivamente a desidratação estava começando a ser um problema. Ao contrário dos enjôos, que depois de um tempo já haviam diminuído.

A noção do tempo sumiu, as luzes ficaram apagadas por muito tempo. A sede e a fome eram assustadoras, mas era o desânimo o pior sentimento. Nem a sensação de agonia causada pela imobilidade era pior que o desânimo. Nem mesmo as câimbras causadas pela imobilidade e pela perda de potássio.

A medida que o tempo passou veio a diarréia, e a noite que ao invés de descansar o corpo se transformou no delírio de um moribundo. Em pouco tempo, as fezes começaram a assar as pernas e o ânus, mas não era possível fazer nada, a caixa era muito apertada para se tentar retirar as calças e limpar a sujeira.

Nada restava a fazer, somente rezar. Com o tempo, as baterias da lanterna se foram e a escuridão se transformou na sua única companhia.

Quando a luz voltou, uma sensação de esperança surgiu novamente, e junto com ela veio a água, abundante para matar a sede. Para a fome nada, senão a hipótese de comer as próprias fezes e os restos de vômito que fermentavam no calor.

O sol, como sempre, era implacável. Ficar naquela sauna talvez fosse o pior tormento que alguém poderia ter imaginado. Nada seria pior. Ser enterrado vivo parecia ser algo muito mais aconchegante.

Os dias se passaram, entremeados pela solidão, sofrimento, o balanço e as pequenas doses diárias de água. Nenhum outro barulho, além do motor, era ouvido; nenhuma voz; nada.

Nada, até que um dia, dois tiros puderam ser ouvidos, e a luz mais uma vez se acendeu. Em seguida a caixa foi aberta. Por mais que parecesse absurdo, a sensação de ser salvo se tornou plausível. O coração se encheu de esperança e alegria. Um policial abriu a tampa.

— Fique calmo, estou aqui para te ajudar. — Sua expressão era de surpresa, ao ver aquele moribundo esquálido, sujo, de olhos secos e pele ressecada. O cheiro da sujeira era insuportável.

— Não se preocupe, eu vou ajudá-lo.

— O que houve? Quanto tempo estive aqui?

— Você está desaparecido por doze dias, mas fique calmo, você agora está a salvo.

A luz do dia, apesar de muito forte, era ao mesmo tempo reconfortante. Ao sair do cômodo, a visão do alto mar esclareceu muitas dúvidas. Mas nada poderia ser melhor que a sensação de viver novamente. Ter uma nova chance de consertar os erros do passado. Uma dádiva, por muitas vezes implorada nas orações. Mas as suas forças eram poucas, e o corpo estava fraco. Tudo escureceu novamente.

Mais tarde ele acordou. Estava deitado em uma cama confortável e usando uma bata de hospital. A mangueira de soro estava presa em seu braço esquerdo, e bem na sua frente, sentado em uma cadeira, estava o policial que o salvou.

— Amigo, o que houve comigo?

Ele respondeu com um sorriso no rosto, de forma amigável, quase fraternal. — Você foi seqüestrado, torturado e preso em uma caixa de madeira.

— Porque fizeram isso comigo?

Dessa vez, em meio a um olhar sarcástico, as palavras saíram de sua boca, quase que em câmera lenta.

— A pergunta certa é: porque não?

O tempo pareceu parar por um segundo! O coração parou uma batida. Em seguida veio um murro certeiro no queixo e tudo escureceu novamente.

Ao acordar, ele percebeu que tudo começaria outra vez. Só que dessa vez, um bilhete, preso na tampa da caixa, dizia: "não se preocupe, quando você desmaiar de fraqueza, eu te colocarei no soro, te hidratarei, alimentarei, farei com que sobreviva indefinidamente."

À noite, a luz então se apagou mais uma vez, só que dessa vez levou junto toda a esperança.

domingo, 1 de novembro de 2009

Conto: A viagem




Mais um conto fresquinho! Espero que gostem da leitura. Um abraço

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Éramos seis, sozinhos, sentados um de frente para o outro, em duas fileiras, calados, olhando o mar passar embaixo de nossas cabeças.
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A visão da ilha, ao longe, me despertou; me fez sentir um pequeno arrepio. Foi uma sensação estranha; interessante. Diferente dos outros, eu possuía uma capacidade ímpar de não me emocionar, não sentir nada. Eu não possuía valores morais, não sentia empatia pelas pessoas. Mesmo assim, aquele momento mexeu comigo. Por apenas um segundo, me senti diferente.
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Eu viajava em segredo, às escuras do mundo, ninguém sabia de minha existência. Sentia-me como um fantasma. Todos me taxavam de louco, doido varrido. Talvez por isso, eles sabiam que apenas eu teria a capacidade necessária para realizar aquela tarefa.
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A guerra continuava lá embaixo. O mundo todo estava perdido em meio ao caos, sem saber quando esse festival de horrores iria terminar. Não importava mais para onde olhássemos, a morte estava lá, com seu semblante sombrio, trazendo sofrimento aos poucos sobreviventes dos ataques. Hitler estava morto, a Alemanha caíra e o reinado de terror ariano havia terminado. Mesmo assim, o Deus da guerra era teimoso demais para ir embora.
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Viajamos por algumas horas, tomamos uns goles de Bourbon para distrair, e conversamos sobre as nossas famílias e mulheres, que estavam em casa nos esperando. Durante a espera, falávamos sobre qualquer coisa para passar o tempo.
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O antigo B-29 era desconfortável e vibrava muito. Apesar disso, era o mais adequado para carregar a encomenda. Com suas três divisões, bancos de metal e espaços abertos, mais parecia uma banheira voadora do que um avião com hélices. Era o que tínhamos e teria que funcionar.
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Quando vi a cidade se aproximar, dei a uma última tragada no meu cigarro, tomei um gole de água e olhei para os soldados em minha volta. Seus olhares nervosos pareciam perdidos em meio à loucura que eu iria fazer. Meus dedos coçavam, a respiração ficou descompassada, a garganta seca, o coração estava disparado.
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Era chegado o momento, muita gente morreria. Eu iria escrever meu nome na história, mudar os rumos da humanidade, mesmo que ninguém soubesse que eu estava ali. Não importava, eu sabia e isso bastava.
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Aproximei-me dos controles, enquanto o resto da tripulação me observava incrédula. Em menos de um segundo, estava tudo feito, a minha vida mudou. As luzes iluminaram o céu e a terra; achei que ficaria cego.
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Foi tudo muito rápido, e ao final, um sorriso maroto teimou em permanecer no meu rosto. Meus companheiros me olhavam horrorizados e aquela sensação de poder me consumiu. Eu havia me tornado um monstro.
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À distância, fiquei observando, emocionado, o cogumelo atômico se formar no horizonte, enquanto isso, o Enola Gay voava acelerado para longe dali. Hiroshima se fora, e em poucos dias Nagasaki teria o mesmo destino. Eu mal podia esperar.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Miniconto: Morrer, antes que o Sol se ponha


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Galera, dando seqüência ao tema do Apocalipse, escrevi mais um continho, dessa vez é um miniconto, para participar de um concursinho, que não vale nada, além da diversão é claro! Ele está lá na Comunidade "Sinistro contos de terror"! A temática é: Cidade deserta.
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Saí de Brasília, ontem à noite, viajei por horas, centenas de quilômetros, tentando chegar a Guarda do Embaú, litoral de Santa Catarina, um dos lugares mais lindos que já vi. No meio do caminho, tentado pelo sono, exausto, me perdi, saí da estrada. Por acaso cheguei à pequena vila de Santa Tereza.
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Eram quatro da manhã, a cidade dormia; esperei. Às nove horas desisti de encontrar alguém, qualquer um. Nada. Pensar o que? A cidade estava morta, deserta, desprovida de vida. Outra vez me deparei com essa situação. A tristeza tomou conta de meu coração e tive vontade de chorar.
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Desiludido, resignado, parei num posto de gasolina, não havia mais nada a fazer. Enchi o tanque, peguei mantimentos e água, até coca-cola eu encontrei. Me abasteci de suprimentos e segui o meu caminho. Não havia nenhum motivo para ficar ali.
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O holocausto nuclear havia consumido tudo, o mundo morrera, e eu, até então, era o único sobrevivente, tentando chegar à praia, a fim de ver o por do sol, lindo, morrendo sob o mar, talvez pela última vez.
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Esse era o meu último desejo, antes do câncer apodrecer minha carne; antes da poeira radioativa cobrir toda a atmosfera, tampar o sol e acabar com a vida em nosso planeta. Um sonho, simples, bucólico, mas que valeria por toda a eternidade. Até porque a eternidade era relativa, e no meu caso, poderia não passar de dias, horas, minutos.
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Peguei meu Uno Mille e segui, na estrada esburacada, a mil por hora, rezando para chegar a tempo de realizar o meu último desejo. Ver o último por do Sol desse milênio.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Conto: [Apocalipse] Memórias




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Galera, escrevi esse conto aqui para participar do concurso na comunidade "Histórias de Terror", no Orkut, criado pelo meu amigo Rubem. Eu sei que não vou ganhar, de novo. UHUUHAUHAUAHUAHA, mas tudo bem ..... escrever, escrever e nunca parar!
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uhauhaa ganhei apenas 1 voto.


Conto devidamente deletado pois eu fiz nele algumas alterações e vou publicá-lo na antologia SOLARIUM II !!! Aguardem

domingo, 31 de maio de 2009

Conto: Temperos



Há dois anos, Maria havia terminado o curso de gastronomia e se formado Chef de cozinha pelo Instituto Cordon Bleu, na França. Desde então trabalhara em três dos melhores restaurantes franceses, inclusive no famoso El Bulli, onde aprendeu a arte do preparo de finger foods, iguarias de altíssima complexidade, servidas em pequenas porções, na medida certa de uma mordida.

Seu mentor e amigo, Pablo, a ensinou suas técnicas e as melhores formas de preparar um jantar, gastronomicamente falando, elegante e equilibrado. Mas, sobretudo, lhe ensinou o segredo de harmonizar as texturas, sabores e odores dos alimentos, transformando uma simples refeição em algo soberbo e memorável.

Durante meses Maria experimentou, testou, cozinhou e se revoltou com os resultados frustrantes e imprevisíveis que chegava. Nem sempre o seu objetivo era alcançado e isso a tirava do prumo, aumentava sua obsessão. Maior do que a vontade de abrir o seu próprio restaurante, do que ser famosa e reconhecida, era o seu sonho de criar o prato perfeito.

Um dia, cansada de tantos fracassos, revolveu largar tudo, pegar as suas economias e viajar. Viajar pelo mundo até encontrar a combinação perfeita de ingredientes. Ficar restrita na Europa não iria acrescentar mais nada na sua busca. Pablo não tinha mais nada para ensinar. O mundo seria seu novo parâmetro de busca. Viajaria pelos quatro cantos, de norte a sul, por anos a fio, até que se sentisse segura para apresentar as suas criações, até que tivesse a certeza de poder dar um passo, maior do que os dados pelos mais famosos e criativos chefs. Seria incansável, procuraria até criar a sua revolução.

Vendeu tudo que tinha e fez um empréstimo de duzentos mil euros. Sabia que nunca mais voltaria à França para pagá-lo. Um pequeno golpe, mas de imensa valia para a realização de seu sonho. Comprou uma passagem aérea e foi direto para o Vietnã. Por lá ficou trinta dias, conheceu temperos, comeu ratos, insetos e frutas da floresta tropical. Sempre de posse de seu pequeno caderno, onde anotava tudo, telefones, fornecedores, possíveis misturas e receitas, e, principalmente, as sensações que sentia ao degustar cada ingrediente.

Foi ao Bornéu, Sibéria, Alaska, qualquer lugar onde existisse um povoado isolado, que pudesse estar cultivando seus próprios alimentos e criando receitas com identidade própria. Passou um tempo com os Jarawas, da Índia, os Sentinelese, nas ilhas Andamão, e os aborígenes na Austrália. Ficou por ali durante quase um ano, até que decidiu viajar para a áfrica e se embrenhar na savana, nas tribos indígenas, com os pigmeus e os Nuba.

Sua inteligência e capacidade de guardar combinações, só se igualavam aos seus potentes olfato e paladar. Suas anotações já formavam quase uma enciclopédia, porém sua busca ainda não havia sido concluída. Precisava ainda voltar a América do Sul e a seu país de origem, o Brasil. Lá, quem sabe, encontraria o ingrediente final, o santo graal de seus pratos. Não sabia ainda o que era e nem como encontrá-lo, mas iria procurar, por mais 10 anos se necessário. Misturar-se-ia, novamente, com os índios e extrairia o conhecimento reservado de cada tribo, uma preciosidade, deixada de lado por todos.

Desembarcou em Rio Branco, no Acre, estudou fotos de satélite e conversou com os moradores locais. Precisava encontrar a tribo Maskos, que até hoje, só havia sido vista por fotos e vivia isolada na divisa entre o Brasil com Peru. Decidiu por comprar um pequeno barco e deu um jeito de descer o Rio Envira.

Fez sozinha a viagem, ela, suas anotações e um aparelho GPS. Quase morreu na jornada e por muito pouco também não foi morta pelos índios. Por fim conseguiu ser aceita e passou seis meses com eles, até que a estação das chuvas passasse e ela pudesse retornar a civilização. Durante sua estadia, conheceu os costumes mais infames da tribo, sua religião, experimentou de tudo que a floresta poderia oferecer, até que um dia, sua busca terminou. Ela havia descoberto o seu Graal, o ingrediente que faltava para seus pratos.

A viagem de volta foi mais fácil e rápida, já estava ambientada. Por sorte, apesar de passar tanto tempo viajando, o seu dinheiro ainda não havia acabado, possuía cerca de cem mil euros, investidos em um banco suíço, poderia seguir em frente. Então com um imenso sorriso no rosto, a vida toda pela frente, dinheiro para investir e um sonho para realizar, Maria se mudou para São Paulo.

Precisava dar início a sua tão sonhada revolução, mas para isso precisava estar em uma cidade grande, envolta entre milhões de pessoas, na invisibilidade caótica da cidade grande. Após se estabelecer e escolher um lugar para o seu tão sonhado restaurante, começou a reforma e a procura pela matéria prima de suas criações. Visitou favelas, feiras, bocas de fumo, pontes e edifícios abandonados. Encontrou tudo o que precisava.

Com tudo acontecendo, a uma velocidade incrível, deu entrevistas na televisão, contou a sua história, cozinhou com a Ana Maria Braga, saiu em revistas especializadas e faturou algum dinheiro. Isso tudo, antes mesmo de abrir seu próprio espaço.

Faltando um dia para a inauguração, seu restaurante estava pronto, em uma casa intimista, com apenas doze mesas, que teriam a oportunidade de apreciar o cardápio secreto. Maria cozinharia e as serviria, sozinha, sem ajudantes. Ela era muito boa para dividir seu conhecimento com outras pessoas.

Às 21:00 hs, recebeu Cristovão, um repórter independente, que estaria fazendo uma matéria para à Folha de São Paulo. Ele seria o felizardo, o primeiro a experimentar os pratos da tão comentada chef, aquele que faria a matéria da capa e a lançaria de vez para o estrelato.

— Boa noite Maria! — disse ele ao ser recebido pela inusitada chef.
— Boa noite! — respondeu. — Vamos entrando. Temos muito a conversar e quem sabe até degustar alguma coisa.

— Obrigado. — Ele entrou e percebeu a influência indígena na decoração do ambiente. Sua imaginação fluiu e seu suspiro de surpresa pode ser ouvido.
Você gostaria de uma taça de vinho? Tenho aqui um bom Chardonnay, que harmoniza perfeitamente com algumas de minhas entradas.

— Claro que sim, vou aceitar todas as suas sugestões. — eles então se sentaram em uma mesa decorada, com tons e peças que lembravam a floresta, e iniciaram uma conversa descontraída e animada.
Estou gostando muito de tudo isso aqui. Bem que você me falou, é de tudo de extremo bom gosto.

— Espere até provar o que eu trouxe do Acre. Minha receita especial. — um sorriso cordial e um pouco malicioso completou o comentário. Em seguida ela serviu três entradas finamente decoradas.

— Mal posso esperar! O que é isso? — perguntou enquanto dava mais um gole no vinho.
Sinto muito, meu amigo, mas o segredo é a alma do negócio. Você terá que se virar sozinho.

Ele então pegou a primeira peça, analisou o visual, cheirou e a levou na boca. — Divina, estou sem palavras, nunca senti algo assim, a textura é agradável, o sabor discreto e diferente de tudo que já provei. Elegante e sensual. Você jura que não vai me dizer quais são os ingredientes principais?

— Ainda não, porque estragaria a surpresa, e além do mais você é repórter e poderia contar a todos. Contudo, acho que eu poderia, pelo menos, te mostrar a cozinha, afinal ela também é importante, não acha?

— Sem dúvida!

— Só te peço um pouco de cuidado, na hora de entrar, pois está repleta de preciosidades.

Dirigiram-se então para a melhor parte do restaurante. Ao entrar, Cristóvão não pôde deixar de notar a qualidade dos equipamentos, as pratarias, copos diferenciados e o conjunto de facas preso na parede. Em seguida, voltaram para o ambiente principal e Cristóvão se sentou na mesa outra vez. Maria mudou a música e abriu outra garrafa de vinho, desta vez um Malbec, encorpado, pronto para ser bebido com carnes de caça, fortes e de sabor potente.

— Vou buscar o prato principal.

Em dois minutos retornou e serviu mais três iguarias, preparadas de forma a fazer vibrar os olhos e enaltecer a alma. Ele provou cada um dos pratos como se tivesse ganhado um prêmio.

— Você não queria saber qual era o ingrediente principal, aquele que você nunca tinha provado? Então o que você acha que é? — falou dando o mesmo sorriso malicioso de antes.

— Sensacional, em toda a minha vida eu nunca provei nada igual, acho até que ninguém o fez. Meus parabéns, me surpreender é algo difícil e você tirou nota dez. Amanhã você pode esperar por uma crítica positiva. Entretanto, infelizmente, ou será o contrário, eu não consegui decifrar o seu segredo.

— Você vai ter que tentar mais vezes! Te espero na semana que vem?
Com certeza.

A entrevista continuou por mais algum tempo e ambos se divertiram muito. Após uma trufa de chocolate como sobremesa e um cafezinho, se despediram.

— Caramba, acho que desta vez eu acertei a mão — disse Maria, então se afastou e pegou uma das facas, a menor delas, usada para fazer sashimi. Acho que vou precisar arrumar mais alguns ingredientes para meus pratos. Ela então abriu o freezer, e começou a preparar os ingredientes para o dia da tão sonhada inauguração. Fígado, miúdos, olhos e carne vermelha.

No dia seguinte, como previsto, a inauguração foi um sucesso, os críticos das mais renomadas revistas de culinária se fartaram de tanto comer e já deixaram a reserva feita para a próxima semana. Ao final, Maria gargalhava para as paredes, enquanto se lembrava da sua estadia na tribo canibal dos Maskos. Viajara o mundo inteiro sem saber que o segredo estava aqui mesmo no Brasil. Que ironia.

domingo, 17 de maio de 2009

Concurso Escritores de Terror



Este mês está rolando o concurso de escritores de terror e vai rolar uma porção de premios. Espero entrar com um novo conto. Veremos.

http://concursoescritoresterror.blogspot.com/

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Conto: O barqueiro

Hoje não era mais um dia qualquer, há muitos anos ele esperava por esta oportunidade, seu sonho se realizaria e se tudo desse certo encontraria novamente com seus parentes e amigos. Durante muitas horas esperara na margem do rio até que finalmente após brigar com meio mundo e provar que poderia embarcar, conseguiu subir a bordo.

O barco então seguiu calmamente pelo rio longo e tortuoso. Era possível ver as chamas altas queimando em uma das margens e as luzes azuis que pareciam subir aos céus na outra. A fúria das ondas teimava em fazer com que as águas sujas molhassem os dois passageiros e atrasava a viagem. O velho barqueiro, vestido em sua capa preta e com o capuz na cabeça, remava em pé e o olhava em silêncio.

— A muito espero por esta viagem, nem acredito que tenha conseguido chegar até aqui. Hoje é um dia muito especial. — Disse o passageiro, ansioso para chegar ao seu destino.

— Ainda não atravessamos o rio e muitas coisas podem acontecer no meio do caminho. Todavia, acredito que correrá tudo bem. Desde que você cumpra o prometido, é claro.

— Eu vivi uma vida impoluta, caridosa e de oração, fiz tudo o que podia e não podia para me tornar digno de estar ali. — Apontou o dedo para a margem iluminada. — Posso até ver meus parentes lá do outro lado, que sensação maravilhosa.

O barco continuou o seu caminho e a ansiedade aumentava a cada remada, a gritaria chegava aos ouvidos, pois as festividades da recepção já haviam começado.

— Agora, falta pouco. Pague-me por favor. Isto é o combinado. — Solicitou educadamente enquanto tentava controlar o barco que balançava muito devido as fortes ondas.

— É para já! — Disse ele retirando as duas moedas que tinha no bolso.
Neste momento por azar ou força do destino, a poucos metros da margem, uma onda maior sacudiu o barco e as moedas escorregaram de suas mãos e caíram no rio turbulento.

— Você tem outras moedas? — Perguntou o barqueiro.

— Ai meu Deus eram as minhas únicas duas. O que faço agora? Por favor me leve até a margem que eu arrumo outras com meus parentes.

— Sinto muito, regras são regras — respondeu furioso e virou o barco rumando para a outra margem.

Ele então ficou ali, sentado, perplexo, imóvel, escutando ao longe a lamúria daqueles que o esperavam. Toda a sua vida tinha sido em vão. Uma lágrima escorreu em sua face enquanto olhava as chamas do Inferno queimando a distância e o barqueiro Caronte o levava embora do Paraíso.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Conto: Sangue na Favela

Estava em casa fazendo nadinha e resolvi dar uma variada, por isso escrevi algo diferente. não vou colocar um ilustração aqui porque senão vai matar o suspense de quem ler.
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Mais uma vez o bar estava lotado, pelo menos umas trinta pessoas se espremiam entre as mesas, o balcão e a sinuca. O samba tocava alto e as mulatas sempre sorridentes e faceiras rebolavam ao pé das mesas. Do lado de fora um pequeno grupo com seis integrantes tocava seus instrumentos e cantava animado. Lá no Canadá não temos nada disso, pensei empolgado.

A Favela da Rocinha é um dos melhores pontos turísticos que já visitei. O povo está sempre de bom humor, prestativo e receptivo. Ela tem seus problemas, é claro, mas nada disso consegue tirar a minha vontade de revisitá-la, sempre que posso. Hoje vou me amarrar em uma morena e passar a noite inteira na farra, tomando caipirinha e transando como louco. Acho que só no Brasil mesmo para eu conseguir me divertir desse jeito. Até tomei o cuidado de escolher a roupa mais adequada, camisa e bermuda brancas. Só não comprei um chapéu branco porque iria desmanchar meu cabelo arrepiado. A barba mal feita, era algo que eu nunca iria mudar mesmo.

— Por favor, me empresta o fogo — perguntei ao carinha atrás do balcão. Tirei uma nota de dez dólares do meio de um bolo de cinqüenta e paguei — E me dê mais uma cerveja.

— Nós não aceitamos dólares aqui. Não temos como te devolver troco para isso.
— Por acaso eu pedi algum troco?
— obrigado então. Mais alguma coisa?
— Sim, me dê uma cachaça também.

Ascendi meu charuto e voltei para a mesa no canto onde estava sentado. A cerveja estupidamente gelada, branquinha do lado de fora, me dizia que talvez o retorno para o Canadá pudesse esperar mais uns dias. Contudo, eu só pensaria nisso amanhã.

A fumaça do charuto preencheu o lugar onde eu estava e as pessoas me olharam de um jeito meio atravessado, mas mesmo assim fiquei ali, esperando para ver o que poderia acontecer. Eu já havia percebido que um grupo de malandros me olhava, desde a hora que entrei no bar e notei que o barman estava falando com eles. Deve ter sido por causa do maço de notas de cinqüenta que eu mostrei a ele. A isca estava lançada.

— Você não gostaria de se sentar e conversar um pouco comigo, perguntei a bela morena que estava em pé ao lado da minha mesa.
— Isso depende, o que você tem para me oferecer? — ela perguntou com a voz mais suave e doce que eu já tinha ouvido.
— O mundo — respondi olhando em seus olhos — e nada, pensei.

Ela se sentou e pude sentir seu perfume barato e o cheiro de creme nos cabelos. Isso me excitou e uma sensação agressiva começou a tomar conta de mim. Pena que ela teria que esperar até mais tarde, pois ainda havia algo que eu precisava fazer. Não demoraria muito.

— Levante-se e saia bem devagar, finja que não gostou de algo que eu te disse.
— Por quê? O que eu fiz?
— Nada, mulher, apenas não quero que se machuque. Vá agora, depois nós conversamos. Pegue o meu cartão e me encontre no Copacabana Palace às onze horas.

Ela concordou e com um sorriso de molequa nos lábios se levantou e foi em direção a saída do bar. No caminho percebeu a movimentação que se formava. A maioria das pessoas já havia saído e o restante me observava. O barman continuava lá, sorrindo sarcasticamente. Este aí vai ter o que merece, pensei.

Não fiz nenhuma menção de me levantar, ao contrário, pedi que me servissem mais duas pingas, uma cerveja. O próprio barman me olhou torto e trouxe o que pedi.

— Aqui está senhor. Por acaso você é maluco? — Perguntou. Como não respondi, ele saiu.

Dez homens entraram no bar, uns armados com fuzis AK-47, outros com pistolas. O chefe do morro, um tal de Jorge Navalhada, se aproximou e se sentou na minha mesa. Ficou ali uns dois minutos me olhando sem dizer uma só palavra.

— Quem é você? — Ele perguntou.
— Tome uma pinga, ela está ótima. Tomei até a liberdade de pedir um copo para você.
— Você deve ser maluco mesmo, tem alguma idéia de que eu seja?
— É claro, vim aqui a sua procura. Tenho algo a te oferecer.

— Espero que seja rápido e muito bom porque se você sabe quem eu sou, já sabe também que sua vida está em risco e a minha navalha está ansiosa para te retalhar todinho. — Disse rindo e olhando para seus comparsas, que também estavam as gargalhadas.

— Vou lhe explicar, — disse grosseiramente — a algum tempo, desde que meu grupo foi desfeito, com o desaparecimento de nosso mentor, passei a cultivar o ódio dentro de mim, deixar aflorar esse lado selvagem que carrego. Me tornei, até certo ponto, um fora da lei. Cansei de ser bonzinho. Decidi que iria fazer as coisas do meu jeito. Sempre que posso viajo pelo mundo a procura de pessoas como você, que dominam tudo, e aviso que vou juntar ao seu grupo. Já fiz isso na África, Líbano, Ucrânia, Itália e em muitos outros lugares. Eu agora sou o que sempre fui, um assassino selvagem e impiedoso, a caça de quem tem mais poder.

Ele ficou ali, me ouvindo, com aquele ar de curioso. — Continue — disse o ele movimentando as mãos.

— Nunca tive dúvida de que adoro o Morro da Rocinha e o povo daqui. Por isso plantei a isca, com aquele pequeno maço de dólares. Até que você foi menos previsível do que eu imaginava. Demorou vinte minutos para descer. — Traguei novamente charuto e soprei a fumaça bem devagar olhando a reação do meu suposto anfitrião. Tomei a outra cachaça e perguntei — Está interessado?

— Deixe me ver, você vem aqui com essa arrogância toda, apenas para saber se eu quero te contratar? Que tipo de imbecil é você?

— Você é burro ou eu estou falando outra língua? — perguntei rispidamente. — Quando eu disse me juntar ao seu grupo, em nenhum momento pedi para ser contratado. A minha oferta é para você me entregar a chefia, descer do morro para sempre e continuar vivo. A partir de agora o Morro é meu e pronto! E aí? Topas?

O estampido do tiro pode ser ouvido à distância, e na rua as mulheres gritaram. A dor era algo que eu estava acostumado, afinal eu a sentia todos os dias em minhas mãos. Caí para trás deitado no chão, com uma bala de trinta e oito no peito. Em seguida senti o peso do desgraçado em cima de mim.

— Cara, você é doido! — Ele gritava e olhava em meus olhos. — Pegou a navalha e passou em meu rosto, na diagonal, cortando superficialmente de um lado ao outro. — Agora é a minha vez de falar, sem besteiras, tua vida acabou, só que antes eu vou te cortar todo antes dessa bala te matar.

Sorri para ele e fiquei esperando me recuperar.

— Eu te dei uma chance. Agora, já era, você está fudido. — Segurei suas mãos e me levantei, arranquei a navalha e joguei-a longe. Usei as minhas lâminas. A bala não estava mais em meu corpo e o corte já havia cicatrizado.

Os capangas ficaram ali imóveis, olhando assustados ao que se passava. As duas lâminas uma de cada lado do rosto de seu chefe só não os assustavam mais do que o sangue que escorria por entre meus dedos. Joguei o Navalhada no chão e saltei em direção aos bandidos. Um a um, eles caíram. Mal tiveram tempo de sacar suas armas. Minhas lâminas eram rápidas e furiosas, meus movimentos precisos por anos de treinamento e meu corpo indestrutível.

Nove dos dez capangas mais o barman morreram ali, em meio ao próprio sangue, retalhados em pedaços. Um deles eu decidi poupar para que transmitisse o meu recado.

Voltei-me então para o meu amigo Navalhada. Olhei em volta e vi que o bar estava destruído.
— Seu filho da puta arrogante e burro, eu te dei uma chance e você desperdiçou, olha só o que eu tive que fazer. Olha só a minha roupa nova, ela era branquinha e agora está furada e vermelha. — Meus olhos fervilhavam com a excitação pela briga e meu corpo tremia. Toda aquela violência me fazia lembrar de quem eu realmente era. Um animal. Olhei para os capangas e disse:

— Avise a minha morena que em meia hora estarei lá no hotel esperando por ela. E lembrem-se de quem manda aqui, agora! esse Morro é meu! Avisem a todos os outros chefes do tráfico que estarei chagando para ter uma conversinha particular com cada um. Espalhem que o monstro que não pode morrer está a caça, aqui no Rio de Janeiro. — Então sob seus olhares pasmos e aterrorizados, cortei o navalhada em pedaços.

— Quem é você? Perguntou um deles.
— Eu me chamo LOGAN, mas todos me conhecem por WOLVERINE. — Dei outro trago no charuto, recolhi as lâminas das minhas mãos e fui embora me divertir com aquela morena linda e sensual que eu havia conhecido à pouco.

sábado, 4 de abril de 2009

Conto: A velha cigana



Era um final de tarde como outro qualquer. A saída do trabalho como sempre movimentada, as pessoas se apertavam no elevador no intuito de chegar logo ao saguão e correr para os seus carros ou para o ponto de ônibus. Só para variar eu já estava de saco cheio, minha chefe havia me enchido o saco a tarde toda e minha mulher não parava de me ligar. Eu realmente estava com vontade de quebrar a cara de alguém, só precisava de um motivo.

No caminho também não ocorreu nada de diferente, pelo menos não até a chegada ao estacionamento. Eu caminhava tranqüilo e despreocupado em direção ao meu carro, rezando para não aparecer ninguém. Foi quando uma senhora e seu neto me abordaram.

Se ela soubesse o quanto eu detesto mendigos, talvez nunca tivesse vindo falar comigo. Só existia uma coisa que eu detestava mais. Ciganos. E ela era exatamente a personificação da minha repugnância, uma cigana, mendiga e suja.

— Por favor, senhor me dê um pouco da sua atenção — disse ela ao encostar a mão em meu braço. Aquele toque me deixou enjoado. — Eu e meu neto precisamos comer e não temos dinheiro. A dias estamos passando fome.

Sua voz era rouca, quase gutural. Aquilo me incomodou, mas não mais do que o toque de suas mãos imundas no meu terno novinho.

— Tire suas mãos sujas de cima de mim, nunca mais me toque. Outra coisa, eu não carrego dinheiro aqui comigo você está pensando o que? Que eu carrego trocados como você? Vá embora e me deixe em paz porque estou atrasado. — Neste momento parei para olhá-la enquanto conversávamos. Sua roupa, um vestido azul surrado, com um casaco de tricô marrom. As pernas de fora e os dedos dos pés, descalços, pareciam que iam cair de tão podres e machucados. Um sinal de que eles andaram muito para chegar ali onde estávamos. Aquilo me deixou mais enojado ainda. Senti pena do menino que estava junto dela, provavelmente um neto. Ele também era a sujeira em pessoa.

— Como é possível senhor? Você é bonito e rico, trabalha neste prédio pomposo e mesmo assim não tem nem dinheiro nem tempo para ajudar uma pobre velha como eu?

— Vá embora! Agora! — falei tentando manter a calma enquanto ela passava as mãos nos cabelos compridos e ensebados, presos em um gorro feito de pano velho.

As pessoas já haviam percebido que eu estava incomodado com aquilo, mas também nada fizeram. A indiferença só era vencida pela curiosidade. Continuei a caminhar e ela veio atrás de mim falando baixo, coisas que eu não entendia.

— Senhor?

O mau hálito vindo daquela boca com dentes cariados entrou pelas minhas narinas e isso foi à gota d’água. — Cacete sua cigana nojenta me deixe em paz! Eu não vou te dar porra nenhuma, nem um centavo sequer. Saia daqui — gritei. As pessoas olharam e começaram a se aproximar. Os seguranças também.

Não me contive e comecei a gritar com as pessoas em volta de mim. — O que é que vocês estão olhando? Vão se fuder! — O menino então parou na minha frente.

— Senhor, por favor, não diga mais nada, sua situação só vai piorar. Vóvó, vamos embora. — Disse ele, visivelmente amedrontado com tudo aquilo.

Não pensei duas vezes, empurrei-o e tentei passar. A multidão ficou enfurecida e começou a me xingar também. O menino caído no chão começou a chorar, por conta do cotovelo ralado. A velha parece que ficou louca e tentou me segurar pelo braço, o que me deixou mais furioso e me fez perder a cabeça de vez. Acabei empurrando ela também. A coitada bateu a cabeça no chão com tanta força que deu para ouvir o estalo da batida, apesar da confusão que se formava.

— Eu mandei você nunca mais me tocar! — em seguida cuspi em cima dela. Os seguranças do estacionamento então me agarraram e acabamos brigando no estacionamento. Enquanto isso as pessoas tentavam acudir a velha cigana, que estava sentada no chão sangrando um pouco na testa.
Quando os ânimos se acalmaram, os dois ainda estavam lá, só que o estado da velha senhora parecia bem diferente. Machucada e irritada me olhou, sua aparência transtornada. Seu rosto enrugado começou a tremer e eu me assustei quando ela gritou. Gritou a plenos pulmões, com aquela voz horrorosa.

— Você vai pagar por isso! — ela estava ficando descontrolada.

Eu já não sabia mais o que fazer, olhei em volta, parecia um circo de horrores, todas aquelas pessoas me olhando e xingando. Eu já estava para sacar todo o meu dinheiro quando reparei em seus olhos. Um deles estava completamente branco, virado para trás e o outro esbugalhado. Ela me olhava fixamente como se fosse me atacar. Porém o que aconteceu foi bem diferente.

A senhora se ajoelhou e quando achei que ela ia chorar, levantou os braços e começou a falar palavras desconexas. Em seguida me olhou profundamente, bem dentro de meus olhos, colocou o pulso direito na boca e o mordeu. A mordida foi tão forte que arrancou a carne. Ver aquele pedaço de carne em sua boca me deixou paralisado, nunca tinha visto nada tão brutal em minha vida. Os tendões balançavam no canto da boca e o sangue jorrava intensamente pela ferida.

Ela então mordeu o outro pulso e com a boca cheia de sangue levantou e se aproximou. Deu dois passos em minha direção, um rastro de sangue se formou no chão. Eu continuava paralisado, chocado com tudo aquilo, os segundos pareciam uma eternidade. Foi aí que senti o gosto imundo e podre em minha boca, a sensação do líquido quente escorrendo pelo meu rosto me tirou do transe. Ela havia cuspido aquela nojeira em minha boca e eu havia engolido parte dele. Ela então se ajoelhou de novo e se deitou no chão olhando para o céu. Imediatamente tirei a minha gravata e amarrei um dos seus pulsos. Rasguei minha camisa e amarrei o outro, enquanto as pessoas ligavam para o socorro médico. O menino chorava e gritava muito.

— Porque você fez isso? Eu te pedi para ir embora!
— Porque? — perguntei a velha senhora.

— Esta é a minha esmola para você! Você agora está condenado, a sua alma será minha e eu farei o que quiser com ela. — Em seguida, voltou a sussurrar palavras desconexas e desmaiou. O menino ainda chorava quando as sirenes da ambulância começaram a ser ouvidas.

Fui liberado pela polícia algumas horas depois e segui direto para o hospital. Eu gostaria de saber como ela estava, afinal eu não queria ser processado pela morte daquela desgraçada. As notícias não eram nada boas. Ela se encontrava em um estado de coma profundo, morta e viva ao mesmo tempo.

Segui para casa pensando no acontecido, na maluquice que aquela senhora havia feito e no choro do menino que parecia ecoar em meus ouvidos. Já era noite e eu ainda tinha um longo caminho até a minha casa. Quase nenhum carro circulava pelas ruas desertas. A noite era fria e uma névoa fina pairava na pista. Eu já estava muito cansado para raciocinar e só queria chegar em casa para poder tomar um banho quente e me deitar na cama.

Quando troquei o CD percebi, ao longe, alguém parado na beira da estrada. Quando me aproximei vi suas roupas puídas e o gorro velho. Era ela ali parada me olhando. Eu corria muito e mal consegui acreditar no que vi. Meu coração disparou e freei o carro. Os pneus cantaram e soltaram muita fumaça, mas quando olhei para trás a estrada já estava vazia.

Fiquei parado, pensando na peça que meus olhos haviam me pregado. Após alguns minutos com o coração acelerado, decidi ir embora e não pensar em mais nada do ocorrido, só que alguns quilômetros à frente, lá estava ela, parada na beira da estrada de novo. Quase freei outra vez, contudo decidi continuar dirigindo, só que desta vez com o rádio desligado.

Minha casa já estava perto e o meu sexto cigarro pela metade quando uma luz alta ofuscou minha visão. Fiquei cego por alguns décimos de segundo e quando o carro finalmente passou olhei no retrovisor para ver se reconhecia o motorista. Congelei! Ela estava lá, parada, me olhando pelo reflexo do espelho. Seu cheiro fétido empesteou o carro. Não pude fazer mais nada quando suas mãos tamparam meus olhos e minha boca. Só pude escutá-la sussurrando em meus ouvidos que eu iria morrer.

Abri os olhos lentamente e uma dor imensa percorreu todo o meu corpo. O pára-brisa quebrado me dizia que algo havia acontecido. Tentei me concentrar e apertei os olhos para enxergar melhor. Folhas e galhos estavam dentro do carro, fumaça branca saia do radiador e o cheiro de gasolina era forte. Só aí percebi que estava preso nas ferragens.

─ Caramba, que porcaria! Eu tenho que sair deste carro agora. ─ Não pensei duas vezes e tentei abrir a porta, mas ela estava presa. Soltei o cinto de segurança e me levantei para pular pela janela. A adrenalina corria solta em minhas veias e a dor pareceu diminuir. Eu precisava sair daquele carro o mais rápido possível, então pulei a janela e caí no chão. O cheiro da grama verde e molhada me confortou, enquanto o sangue escorria pela minha testa. Lembrei o gosto do sangue apodrecido da velha cigana.

─ Tudo bem, fique calmo, a ambulância já deve estar chegando. ─ falei para mim mesmo enquanto me arrastava para longe do carro e já ouvia ao longe as sirenes. Tudo escureceu novamente.
Acordei em meio aos gritos de dor na enfermaria de algum hospital, provavelmente o Hospital de Base, perto de onde eu estava. Lotado como sempre e com poucos médicos, o pronto socorro era o caos, o inferno na terra. Não sei quanto tempo fiquei por ali, mas algo estava estranho, aquela maca sem colchão e as roupas brancas e sujas de sangue não condiziam com o tratamento que qualquer pessoa mereceria ter. Tentei me levantar, mas não consegui. O frasco de soro já havia secado e o sangue subia pela mangueira, indicando que algo não estava bem.

─ Puta merda, eu devo estar num dia daqueles! Devo estar pagando por todos os meus pecados. Enfermeira! ─ Chamei por duas vezes e ninguém veio me atender. Fiquei ali pensando em como fazer para sair e ir embora para casa quando a cortina atrás de minha baia foi retirada e uma maca vazia colocada ao meu lado.

─ Por favor onde está o médico ou a enfermeira? ─ perguntei ao servente que trouxe a maca.

─ Já vou chamá-lo, espere um minuto.

Adormeci novamente sem o auxílio de ninguém. Provavelmente os sedativos eram fortes demais. Mais tarde, a dor em minhas pernas havia voltado e acordei assustado, pensando que estava no meio de um pesadelo. Quando abri os olhos não consegui segurar o grito de horror, a cigana estava deitada na maca ao meu lado, me olhando fixamente, sem expressão. Apenas me olhando. Urinei nas calças de tanto susto e gritei, gritei muito. Só então os médicos chegaram para me ajudar.

Fui segurado e injetado com algum tipo de calmante. Ninguém da minha família havia sido avisado, pois eu continuava sozinho no meio daquele inferno.

─ Fique calmo, eu sou o Dr. Jorge. Você sofreu um acidente e bateu com a cabeça.

─ Obrigado doutor. ─ Respondi enquanto tentava me controlar. ─ O que ela está fazendo aqui? É por causa dela que estou aqui. Me tire daqui agora! ─ gritei descontrolado de novo.

─ Sinto muito, mas não temos outro lugar para te colocar. Fique tranqüilo que ela está em coma.

─ Ela estava me olhando doutor.

─ Foi impressão sua ─ Disse ele enquanto me isolava puxando com as cortinas de plástico. ─ Fique calmo, seus exames já devem estar prontos e se tudo estiver bem você vai para casa ainda hoje. Somente agora conseguimos entrar em contato com sua esposa. Ela já está a caminho. Posso te deixar aqui? Sozinho? Você já está desamarrado e medicado.

─ Tudo bem. ─ respondi ainda sobressaltado. Me deitei de novo na maca, fechei os olhos e escutei o médico deixando o ambiente.

Eu devo realmente estar ficando louco, não pode existir tanta coincidência assim, essa louca aqui do meu lado só pode ser um pesadelo. Talvez se eu ficar de olhos fechados nada me aconteça. Foi aí que ouvi uma voz me chamando, uma criança.

─ Sr? Pode me ouvir? Porque você não me escutou, agora você terá que pagar o preço, sua alma está perdida, assim como a minha.

Levantei da cama num pulo só e olhei assustado para o garoto. O neto da velha cigana, ali, em pé ao lado da minha maca. Eu estava sentado no fundo da maca, com as pernas encolhidas, aterrorizado com aquela visão. Seus olhos estavam perdidos e sua expressão triste.

─ Nós só te pedimos uma esmola, só isso. Mas você não podia dar não é mesmo? Pense nisso quando pagar o preço. ─ Em seguida saiu correndo.

Não pensei duas vezes, me levantei e saí correndo sem saber para onde ir. As pessoas assustadas me olharam correndo, mas nada podiam fazer. Os seguranças do hospital atendendo outros pacientes nem me viram passar. Os corredores pareciam infinitos e as macas espalhadas também. Eu não tinha a menor idéia de onde ir, só queria fugir dali o mais rápido possível. Desci as escadas de incêndio, enquanto ouvia em minha mente o gargalhar da cigana. As luzes foram diminuindo, talvez pela chuva, talvez por outro motivo qualquer. De repente tudo ficou escuro.

Gritei de medo, ali, preso nas escadas e sozinho, o cheiro de podre da velha mais uma vez tomou minhas narinas e eu me desesperei. Tentei descer as escadas e caí, rolando os degraus. As luzes de emergência se acenderam e me deram um alento. Eu ainda estava sozinho, ela não estava lá.

Abri a porta da saída de emergência e entrei num andar que mais parecia um depósito. Tudo lá estava jogado, o cheiro de mofo e de lençóis contaminados era incrível. As máquinas de lavar faziam muito barulho, ninguém poderia me escutar. Eu estava entrando em pânico quando vi a velha ali parada olhando para mim. As luzes se apagaram outra vez, senti uma mão tocar de leve o meu rosto. Eu já não sabia mais o que pensar ou fazer, decidi correr, fugir, mas tudo estava escuro. Corri assim mesmo, eu me lembrava de pelo menos uma passagem no meio dos latões e por lá tentei passar. Não dei nem cinco passos e senti o chão sumir de meus pés, era como se ele não estivesse mais ali. Caí, num buraco, num poço e me afundei naquela água fétida.

As luzes de emergência se acenderam mais uma vez e me vi num túnel dos esgotos, completamente coberto por aquela sujeira fedorenta e sem saber o que fazer, dezenas de ratos se juntaram perto de mim, observando, olhando em meus olhos.

─ Meus Deus, e agora? Por favor me proteja, proteja a minha alma. ─ Antes que eu pudesse falar mais alguma coisa duas mãos saíram do esgoto negro, me agarram e eu fui puxado para baixo. Sufoquei e me debati. Nessa hora, em meio ao desespero abri os olhos e vi meu corpo, lá embaixo, se debatendo. Parecia que minha alma não estava mais lá e sim flutuando. Será que eu estava morto?

─ Não, você não está morto. ─ disse a cigana. ─ Eu disse que sua alma seria minha e é isso que está acontecendo. Estou tomando posse dela e vou te castigar de uma forma que você vai se lembrar pelos próximos anos. Farei com ela algo que você nunca se esquecerá, algo que te lembre da sua mesquinharia.

Tudo escureceu novamente.

Quando recobrei a consciência tudo estava diferente, aquele cheiro podre estava em mim, não enxergava direito e meu corpo doía. Me sentei na cama com muita dificuldade pois meu corpo parecia não ajudar e notei que minhas roupas haviam sido trocadas por outras velhas e estragas, achei que alguém havia me pregado uma peça. Aquilo só poderia ser um pesadelo.

─ Socorro ─ Chamei alguém, mas não reconheci a minha voz e outra vez o menino abriu as cortinas. Minha idéia de pesadelo havia ido por água abaixo. Era tudo real.

─ Eu te disse, não disse?

─ O que houve? ─ perguntei

─ Ela pegou a sua alma, seu castigo assim como o meu será muito pior que você pensa. ─ Em seguida me deu um espelho.

Olhei nele e fiquei pasmo, em choque, sem saber o que fazer, a imagem refletida era a da velha cigana. Olhei então as minhas mãos e pés e percebi o ocorrido. O menino abriu o resto da cortina e sorriu. Eu estava lá em pé bem na minha frente. O meu castigo não poderia ter sido pior, até a morte seria melhor do que isso, vagar pelos próximos anos, sozinho, pobre, neste corpo velho e imundo. Este era o meu maior pesadelo.

Então, sem poder fazer nada, fiquei lá, estático, me olhando, até meu corpo ir embora, sem minha alma, de mãos dadas com o menino, tomado pelo espírito demoníaco da velha cigana.
Quem sabe uma hora dessas eu não aprenda esse truque, trocar de corpos, quem sabe um dia alguém também vai me negar esmolas e eu voltarei a ser quem eu era, pensei nisso e minha dor não melhorou, meu coração continuava apertado e fiz a única coisa que me restava. Chorei.

terça-feira, 31 de março de 2009

Conto: Uma taça de vinho





Às vezes, quando eu bebo, fico conversando por horas, dou voltas e mais voltas, a minha mente viaja, e é neste momento que me sinto livre. Nestas horas eu me lembro das coisas boas da vida, dos meus tempos de adolescente e de quando me tornei adulto, essa fase que parece nunca passar. Por isso, para mim é normal comparar o antes com o depois, as fases boas com as ruins, os sonhos com as decepções. Programar o futuro, sem nunca me preocupar com o que vou deixar para trás.

Eu ainda gosto muito de fazer isso, me lembrar, enquanto bebo um bom vinho tinto. Cada garrafa é diferente da outra e é a sensação do desconhecido que está por trás de cada uma que faz com que o ato de beber seja tão agradável.

Quem me conhece sabe que este tipo sentimento governa minha vida, e que o desconhecido abre as portas em minha consciência. Mas, ninguém ainda me descobriu por inteiro, porque parte de meus sentimentos e de minha vida, são tão sombrios, tão obscuros, que me recuso a compartilhá-los com qualquer pessoa normal.

É uma pena que a minha vida tenha mudado tanto. A muitos anos não sinto mais o gosto de um bom vinho, mas aquela lembrança ainda vive dentro de mim. Por isso, sempre que posso trago comigo uma Taça Bordeaux. Afinal, agora só me resta harmonizar a vítima com uma boa dose de “vinho A+”, e me lembrar dos velhos tempos, quando um coração ainda batia em meu peito e o sol aquecia minha face nas manhãs de domingo. Enfim, mesmo após 200 anos, eu ainda sou viciado na lembrança de um bom vinho e em tudo que ele me lembra de bom.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Reflexões

ESCREVER ...ESCREVER....ESCREVER ....EDITAR SÓ NO FIM !!!!
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NUNCA PERMITIR QUE AS IDÉIAS PAREM DE FLUIR E QUE O ESCRITOR INTERROMPA SEU TRABALHO CRIATIVO PARA CORRIGIR PEQUENOS DETALHES. ESTE É O MEU LEMA!
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DEIXAR A CRIATIVIDADE EXPLODIR EM MINHA CABEÇA E PASSA-LA PARA O PAPEL TALVEZ SEJA UMA DAS COISAS MAIS DIFÍCEIS E CATIVANTES QUE EU JÁ FIZ. TALVEZ POR ISSO TAMBÉM SEJA UMA DAS MAIS RECOMPENSADORAS EXPERIÊNCIAS QUE JÁ VIVI.
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UMAS DICAS:

1- AO CONTRÁRIO DO QUE MUITOS PENSAM, ESCREVA PARA VOCÊ, VIVA OS SEUS PERSONAGENS E SE MUDE PARA DENTRO DE SUA HISTÓRIA!

2- NÃO LIGUE PARA OS ERROS OU COMENTÁRIOS MALDOSOS DE CRÍTICOS INDIFERENTES AO SEU TRABALHO, CRESÇA COM ELES E MELHORE SEU TEXTO, PORQUE ELE É FRUTO DE SUA PRÓPRIA IMAGINAÇÃO. ELE SÓ TEM QUE AGRADAR A VOCÊ MESMO, MAS SE OUTRAS PESSOAS CURTIREM MELHOR AINDA.

3- AS LIÇÕES DE VIDA E OS SENTIMENTOS BEM VIVIDOS DÃO ÓTIMOS TEXTOS. POR ISSO, SINTA, VIVA, PENSE, SOFRA, CHORE E MORRA TODOS OS DIAS MAS SE LEMBRE SEMPRE DE OS COLOCAR NO PAPEL LOGO APÓS O MOMENTO QUE A SENSAÇÃO FOR MAIS FORTE OU NA PIOR DAS HIPÓTESES ANTES DE DORMIR. NÃO OS PERCA DE JEITO NENHUM.

4- ANDE COM O SEU BLOQUINHO DE PAPEL E O LÁPIS ATRAS DA ORELHA - A GENTE NUNCA SABE QUANDO PODE TER UMA BOA IDÉIA.

5- ESCREVA SOBRE O QUE VOCÊ SABE, TÓPICOS QUE DOMINA, POIS ASSIM PODERÁ FALAR COM PROPRIEDADE SOBRE O TEMA E PASSAR A INTENSIDADE E A VERDADE DO QUE ESTÁ PENSANDO.

6-POR FIM O MAIS IMPORTANTE: ESCREVA COM PAIXÃO !!!!!!

7- CANSEI ...... CHEGA ...... NÃO RECLAME POIS EU POSSO TE ACHAR E TE MATAR ..... BEM DEVAGARINHO.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O diário do padre Matias




DIÁRIO DO PADRE MATIAS -





Página 25

(...) Escreverei aqui um pouco de minha história porque sei que nunca chegarei ao Brasil. Acredito que com esse tempo lá fora, essa chuva, nossa caravela deverá afundar muito antes de completar a viagem. Pouco importa o que vou escrever. Muitas das coisas que contarei aqui nunca deverão ser lidas por ninguém. Foi um juramento de silêncio que fiz já as vidas de meus companheiros dependem disso.

Desde criança eu sinto estes impulsos violentos e posso ver hoje, como num piscar de olhos, a primeira vez que eu vi sangue de verdade, sangue de gente. Naquele dia eu estava com oito anos e era inverno.

O entorno da cidade de Lisboa se encontrava completamente encoberto por uma neve espessa que havia caído na noite anterior. As árvores nuas e com os galhos expostos transformaram a paisagem, antes verde e florida, em um cenário mórbido e sombrio, quase igual ao cemitério da cidade. Poucos animais se arriscavam a sair naquele frio, e somente à noite, protegidos pela escuridão davam o ar de sua graça. Nesta hora era possível escutar ao longe o piado das corujas e o uivar dos coiotes.

Naquele dia nós saímos para caçar javalis, armados apenas com uma garrucha e uma faca. Faríamos uma caçada onde o silêncio, a tocaia e um bom esconderijo em cima de uma árvore, eram a diferença entre o sucesso e o fracasso. Eu, meu pai e mais dois de seus amigos andamos por mais de três horas pela mata fechada até acharmos um local ideal para montarmos a tocaia. Como esta era a minha primeira caçada, eu ainda não sabia direito o que fazer. Já estava difícil demais carregar a arma, o casaco e um pouco de comida e água.

Um frio de doer os ossos e o vento de rachar os lábios soprava cada vez mais forte. O barulho do vento parecia uma alma penada assobiando em meus ouvidos e a cada minuto que eu passava em cima daquela árvore aumentava o meu sofrimento e a minha angústia. A minha vontade era de gritar, mas eu sabia que o menor barulho poderia espantar a nossa caça e adiar ainda mais o retorno para casa. Caçar definitivamente não era o meu esporte predileto.

Ficamos espalhados em uma área de uns vinte metros, cada um em uma árvore diferente, esperando por algo passar embaixo da gente. O vento continuava a soprar e soprou tanto que por muitas vezes eu tremi a ponto de quase cair lá de cima. Chegou uma hora que meus sentidos já estavam meio entorpecidos e minha mente começou a vagar por outros lugares mais aconchegantes e aquecidos. Eu já sabia que de nenhuma forma sairíamos dali antes do amanhecer, portanto a única coisa que poderia fazer era pensar em outra coisa e esperar o tempo passar.

Foi nesta hora, quando já havia desistido de tudo, que comecei a entender o real motivo de todos estarem ali. Entrei numa espécie de transe, o frio já não mais incomodava meus ouvidos e o cheiro da mata já não era o mais forte. Aquela sensação me deixou com os pelos da nuca eriçados e um arrepio cortante subiu pela minha espinha. Eu podia sentir o que se passava em minha volta, escutava os estalidos dos galhos pisados logo à frente de meu esconderijo e a sentir o cheiro acre e meio enjoativo, do animal, que era trazido vindo pelo ar.

Aquela sensação envolveu a minha alma, tomou meus pensamentos e fez com que eu me sentisse o maior de todos os caçadores. Foi nessa hora que tremendo e soltando fumaça pela boca, que vi um javali de mais ou menos uns oitenta quilos, o bicho era grande demais e meu coração quase pulou pela boca. Ele estava um pouco à frente da árvore do Juarez, e penso que o retardado estava dormindo, pois nenhum tiro foi disparado. Na verdade eu acho que todos estavam dormindo, menos eu que estava quase tendo uma crise de hipotermia.

Não deu outra, engatilhei a minha arma, muito devagar, trazendo o gatilho para trás, e mirei. Estava difícil de enxergar, apesar da lua estar cheia e a pino lá no céu. As sombras geradas pelos galhos das copas das árvores traiam a minha visão e diminuíam a minha confiança, assim como a neve fina que caia. Para piorar, a minha mira voltou a tremer. O bicho se aproximou e já estava numa posição perfeita para o meu tiro certeiro,. Parecia que a adrenalina tomara conta de todo o meu corpo. A tremedeira e a excitação eram tamanhas que eu já não sentia mais as pontas de meus dedos.
Foi nessa hora, onde existe uma comunhão entre a vítima e seu algoz, que eu consegui ver o brilho da lua no olho do bicho. Neste momento eu percebi que a vida daquele animal estava em minhas mãos e quase que instantaneamente um calor passou por minhas veias, percorreu todo o meu corpo e então, neste exato momento, eu decidi, mirei e atirei.

Não vi mais nada depois disso. Pelo menos não por um pequeno espaço de tempo. Acordei com me pai em cima de mim, abraçado e enrolado num cobertor tentando me aquecer. Só depois eu entendi que no auge de minha excitação eu havia deixado meu cobertor cair e com isso acabei desmaiando por causa do frio intenso, esse fora o real motivo da minha tremedeira. Ao mesmo tempo, eu também podia ouvir os gritos estridentes de Juarez.

Demorei um pouco para entender que o meu tiro não matou o javali e sim acertou o coitado do Juarez na barriga. Provavelmente eu havia desmaiado ao mesmo instante que apertara o gatilho.
Neste momento uma sensação diferente tomou conta de mim, me entorpeceu e à medida que os gritos invadiam os meus tímpanos, que aquele sofrimento permeava a minha alma, uma sensação de êxtase nunca antes experimentada se apoderou de mim.

Eu então levantei, empurrei meu pai para longe e fui observar a cagada que havia feito. O coitado do Juarez estava no chão com um rasgo na barriga, a bala havia entrado e saído no sentido lateral ao invés de ter atravessado de um lado ao outro. Parecia que o coitado havia sido estripado com uma faca.

Nessa hora eu pensei que aquelas coisas enroladas deveriam ser os famosos intestinos que meu pai tanto falava e o sangue jorrando para a direita, marcando a neve branca, parecia uma daquelas pinturas macabras que eu havia visto na casa de minha avó.

Naquele momento, tão sublime, entre um grito e outro, eu pude perceber que algo havia mudado em mim e que a partir daquele instante eu era uma nova pessoa. Era como se uma chave houvesse sido girada e sensações e pensamentos novos surgissem a cada segundo. Qualquer católico se me visse, naquele instante, iria pensar que o Diabo soprou algo em meu ouvido e contaminou a minha inocência.

Eu só pensava em observar em detalhes o sofrimento do coitado, que estava a pelo menos três horas de caminhada da cidade e a uma temperatura de gelar a alma. Neste instante percebi que poderia dominar a vida das pessoas, poderia controlar a vida e a morte, e que o futuro de alguém poderia simplesmente estar em minhas mãos.

Acredito que se e tivesse mais idade eu teria tido um orgasmo naquele momento. Mas aos oito anos eu só poderia mandar todos me largarem e ir assistir o Juarez se agonizar em gritos e sofrimento. Nesta hora, mesmo eu achando que todos estavam cuidando dele, eu me aproximei e fiquei olhando em seus olhos para ver o que aconteceria. Eu esperava descobrir o exato momento entre a vida e a morte, aquele onde a pessoa se desengana por total e desiste de tudo, um mísero milionésimo de segundo que poderia acontecer a qualquer hora e ficaria marcado em minha memória para sempre. É claro que quando esse momento ocorreu, por dentro, eu enlouqueci, mas por fora deixei apenas transparecer um pequeno sorriso e um suspiro de prazer. Suspiro quase imperceptível. Quase!
Seu Jaque de Lire, um dos amigos de meu pai, caçador experiente e católico fervoroso percebeu na hora o que se passava e por incrível que pareça eu também. Quando nossos olhares se cruzaram eu percebi que havia arrumado um inimigo para a vida toda, um inimigo de vida e de morte. Nessa hora meus olhos brilharam e eu senti outro calafrio correr por todo o meu corpo. Um calafrio bom, daqueles que fazem a gente gemer de felicidade. Mas a minha história com Jaque de Lire eu contarei mais adiante.

Alguns anos depois, nos mudamos para uma fazenda no interior. A morte de Juarez havia mexido muito com meus pais e também com parte de nossa comunidade. Vivíamos todos como se fossemos uma grande família, éramos todos conhecidos naquele local e aquela morte tão violenta e imbecil acabou por marcar para sempre a nossa família. Fomos expulsos de nossa casa e por conta das palavras de ódio proferidas por Jaque, eu fiquei jurado de morte. Foi nesta hora que meus pais resolveram fugir.

De início pensamos em nos mudar para outro país, mas com o tempo decidimos nos estabelecer na pequena cidade de Palmos, nos arredores de Lisboa. Um erro que seria cobrado a ferro e fogo no futuro. A vila era tão pequena que qualquer suspiro poderia ser ouvido a um bairro de distância e se dependesse das fofoqueiras da cidade chegaria muito mais longe. E foi exatamente o que ocorreu, não foi como a velocidade do pensamento mas foi com certeza um pouco mais devagar que esta narrativa.

Tudo começou quando fiz dezenove anos. Há muito eu lutava contra os meus pensamentos e minhas vontades. Às vezes eu chegava a explodir e era nesse momento que saia de casa e sumia por alguns dias. Meus pais ficavam loucos, mas naquela época controlar os filhos era algo quase impossível. Na mesma ocasião surgiram três corpos mutilados nos arredores da cidade e a polícia não sabia nem como dar início a uma investigação daquele porte. As notícias corriam como se fossem pombos correios voando a velocidade máxima do vento, e foi nessa hora que vi o então recém nomeado padre, Jaque de Lire, chegando à cidade.

Meu coração gelou e minhas veias pareciam que iriam explodir em minhas têmporas. A sensação de criança havia voltado a meu corpo e minha mente fervilhou de idéias. Foi neste momento que eu descobri de uma vez por todas que nossas contas deveriam ser ajustadas, senão minha vida poderia se tornar um inferno. Mas como um garoto de dezessete anos poderia criar uma armadilha para um ex-policial experiente e sagaz que percebeu num piscar de olhos a minha índole, nove anos atrás?
Desde aquele momento floresta, Jaque vinha me observando de tal forma que sufocou minha família. Na verdade ele foi o pivô de toda a discórdia e na minha cabeça a sua hora havia chegado.
Jaque, quando me viu, após vários anos de distanciamento, na mesma hora me reconheceu.
Ele se aproximou, imponente em cima de seu cavalo branco e me disse: Estes olhos eu não esquecerei jamais! Vou te pegar moleque e quando isso acontecer você sofrerá mais que todas as pessoas que você já matou. Eu não tenho dúvida nenhuma que a morte destas pessoas tem ligação contigo.

Na verdade elas tinham mesmo, foi eu quem perseguiu e sodomizou cada uma daquelas pessoas mortas. Fiz delas um ateliê de minhas vontades, um algo inimaginável. Entendi que nada poderia me transformar em algo diferente do que sou. Eu sou um assassino e se existe um capeta de verdade ele sempre soprará algo em meus ouvidos confirmando a minha aptidão. Caso não exista, apenas servirá para provar que a vida serve para ser vivida ao extremo. E no extremo eu estou.

O desgraçado do Jaque havia se tornado padre a mais ou menos um ano, logo depois de desvendar os crimes do canal, em Lisboa. Naquela época eu acho que algo fez com que ele perdesse de vez a crença na capacidade dos homens se recuperarem e acabou se voltando para a religião como se fosse a sua última saída daquele mundo cão. Eu particularmente acredito que o safado nunca me esqueceu e que o seu egresso na inquisição foi decorrente na sua obsessão por mim.

Passei quase uma semana pensando no que fazer a respeito da sua presença e como eu poderia me livrar de sua influência de uma vez por todas. Mas nada disso adiantou porque no oitavo dia de sua chegada ele descobriu onde eu morava e invadiu a minha casa prendendo toda a minha família de uma vez só. Acho até que ele demorou tanto porque estava arquitetando seu plano maléfico. Sua vingança.

Não satisfeito em ter-me nas mãos ele usou de todo o seu poder, investido pela igreja, para tentar me ludibriar a confessar os meus crimes. Mas eu sabia que isso nunca aconteceria e também sabia que sofreria o “pão que o diabo amassou” nas mãos daquele canalha. Só nunca imaginei que ele torturaria a minha família para tentar atingir o seu objetivo. Até ali, eu ainda poderia viver com isso, mas quando a tortura começou a ser realizada bem na minha frente às coisas mudaram de figura. Eu nunca me esquecerei de minha irmã sendo queimada viva com ferros quentes e nem dos seus gritos quando a fogueira foi acessa. O cheiro da carne queimada invadiu minhas narinas de tal forma que eu quase entreguei os pontos.

O único problema é que minha família acreditava piamente na minha inocência, e eu nunca os deixaria morrer sabendo da verdade, até porque todos nós morreríamos de qualquer jeito nas mãos daquele inquisidor. Certos ou errados o nosso destino já estava traçado. E a dor estava escrita em cada linha daquele plano selvagem, escrito por Jaque.

A morte de minha irmã foi derradeira para que eu entendesse o sofrimento das famílias de minhas vítimas e mais ainda, para eu ter a real noção de meus sentimentos. E nessa hora percebi que a dor da perda e nada significavam a mesma coisa no meu coração gelado. Somente o sentimento de vingança, misturado ao desafio de matar um inquisidor e temperado com as nuances da tortura é que aplacaria a minha ira.

Nesse dia eu descobri que não tinha valores e nem sentimentos, minha alma era vazia e meu coração de pedra. Foi então que decidi que o meu mundo era diferente e que minha vida seria pautada apenas naquilo que me desse vontade. Desse momento em diante, o meu único objetivo era o de sobreviver ao Padre Jaque de Lire e de sobreviver àquela Igreja inquisidora.

O mais estranho é que este fato se passou como que num piscar de olhos, eu simplesmente senti tudo isso e pronto. No outro segundo já havia me transformado e então um sorriso maroto apareceu em minha face. O que mais eu poderia fazer? Nada! Pensei e me resignei.
As mortes de minha mãe, pai e irmãos significaram apenas o começo de tudo e a partir dali eu viveria cada segundo, de forma a curtir tudo aquilo que eu apreciava antes de minha prisão. A morte, a dor e principalmente o domínio sobre a vida dos outros.
Nós quatro fomos aprisionados numa cela de pedra, escura e mofada, nos subterrâneos do castelo do senhor Mariano, um senhor feudal implacável que levava o seu rebanho em rédeas curtas e aterrorizava as virgens de sua pequena cidade. Ele havia emprestado seu castelo à Igreja para a realização de seus rituais inquisidores. Emprestado talvez não fosse o que realmente ocorreu, pois caso se negasse a fazê-lo quem poderia parar na mesa de tortura seria o próprio Mariano, mas, fora isso, algumas trocas financeiras e favores devem ter sido combinados na ocasião, para que nada vazasse dali, nenhum comentário sobre o ocorrido sairia daquelas paredes.

Estávamos presos a grilhões de ferro e correntes fincadas no teto da cela. Parecia que após algumas horas, as bordas começavam a cortar a carne de nossos pulsos e os ombros a se deslocarem. Pelo menos eu não estava de cabeça para baixo. Meu irmão mais novo, Rodolfo, não agüentou de tanto chorar e desfaleceu por alguns minutos. Nesta hora nós rezamos para que ele houvesse morrido e escapasse do sofrimento que estava por vir. Minha mãe teve um ataque cardíaco logo nas primeiras chicotadas e sua dor foi aliviada rapidamente, junto com os gritos de “aleluia Senhor” profanados pelos padres inquisidores.

Eu fiquei ali sem poder fazer nada e olhando em volta, cultivando a minha dor e a minha raiva, tentando entender o porquê as salas de tortura eram daquele jeito. A única coisa que me ocorreu foi que as pequenas janelas da cela davam um último fio de esperança aos moribundos, como se sentir o calor de um pequeno raio de sol ou o cheiro da chuva na grama molhada mostrasse a existência de Deus e um mundo melhor na outra vida. Todo o resto ficava ali, acabando com o pouco da sanidade que sobrava.

As baratas e ratos comungavam com os presos e dividiam restos de comida e fezes espalhadas no chão. Durante o verão o calor deveria ser insuportável, pois não havia circulação de ar, e no inverno o contrário. Mas nada disso importava porque ninguém que entrasse ali duraria mais que uma estação.

No outro dia após a morte de minha mãe eu fui levado a uma sala de interrogatório e torturado por mais ou menos trinta minutos. Ainda me lembro do som de minhas unhas sendo arrancadas. Jaque queria a minha confissão para validar o seu trabalho e poder se deliciar com a fogueira, só que isso eu nunca daria a ele. Dois dias depois cortaram as mãos de meu irmão bem na minha frente, com um serrote, e eu o vi sangrar até a morte. Percebi também que todos se refestelavam com a situação, a lavagem cerebral foi tamanha que um desgraçado daqueles poderia chegar vibrar torturando os coitados ali presentes. Nessa hora imaginei como seriam as suas vidas fora dali. Não cheguei a nenhuma conclusão.

Nenhum dos inquisidores conseguiu acreditar na minha impassividade face à morte de meus familiares. Isso só os deixou mais crentes no fato de que eu era realmente amaldiçoado e merecia queimar na fogueira. No mesmo dia que meu pai morreu a situação toda mudou. Mudou de uma forma que poderia ser dita como um milagre. Um milagre dos céus, ou seria das trevas?

Eu já estava ali a duas semanas numa cela pútrida, pois nossos excrementos nunca fora retirados, bebendo uma água tão suja que parecia vinda dos esgotos. Para comer eu recebia um pão duro e velho cheio de bolor e uma sopa que acredito haver sido feita com comida estragada. Se não fossem os ratos e as baratas, eu nunca teria sobrevivido. O verão estava no seu auge e lá fora tanto a temperatura quanto a umidade estavam muito altas e aqui na cela eu suava como um porco. O calor era sufocante. Ficar acorrentado nessa situação deixaria qualquer um louco e comigo não foi diferente. Só que eu era não era como as outras pessoas, eu possuía um poder de concentração incrível, o que me fez agüentar todas aquelas privações. As seções de tortura eram o meu maior problema, já que quanto à dor não se podia fazer muita coisa mesmo.

Nesse dia Jaque entrou em minha cela e disse: é hoje que eu te torço todo. Eu na mais pura inocência achei que ele falava sobre a minha confissão, mas me enganei completamente. Fui levado a uma sala onde se encontrava uma máquina novinha, recém chegada do Vaticano. Só de olhar para a maldita meu sangue gelou e percebi que sofreria muito ali. Encarei Jaque e disse: hoje nossas diferenças serão resolvidas e colocaremos em pratos limpos toda a nossa história desde a morte do Juarez. Eu só não sei se você vai gostar do que tenho para dizer.

Jaque de Lire sorriu e disse na mesma hora: Eu mal posso esperar para ouvi-lo, mas primeiro farei algo sonhado há muito tempo. Ponham-no na máquina agora, berrou.

Seus vassalos me puseram naquela merda com uma rapidez que me surpreendeu. A máquina era simples como um instrumento de tortura mais antigo. Eu fui colocado em pé num encosto de madeira, de forma que minhas pernas ficaram abertas e meus braços também. Porém, as primeiras em posição de X e os braços abertos, perpendiculares ao corpo. O equipamento possuía furos de vários tamanhos em todas as suas partes e nas pontas braçadeiras metálicas para me imobilizar. Existiam também cintos de metal para evitar que meu abdome fosse para frente. Ou seja, no fim eu estaria completamente imóvel, e eu fiquei mesmo.

Os braços e pernas eram articulados, movimentados por manivelas individuais, e podiam ser dobrados para baixo ou para os dois lados,. Um mecanismo bem simples, mas eficiente. Era só começar a girar a manivela que os membros eram movimentados juntos no sentido contrário às articulações. Por fim, ela era presa no chão de forma a não escorregar nem tombar o corpo, o apoio das costas também poderia ser levantado e abaixado. Com isso eu poderia ser inquirido deitado ou em pé.

O toque dos grilhões de ferro em minha pele foi estranho, mas eu me controlei, olhei para o Jaque e não demonstrei nenhum sentimento, apenas um olhar seco. No fundo até me imaginei na posição dele e curti a sensação.

Seu pecador desgraçado, ele me disse, hoje você me paga, pois nunca esqueci o brilho dos seus olhos no dia que tu mataste o Juarez. Eu percebi naquele momento que você estava guiado pelo demônio ou na pior das hipóteses, você era o próprio em pessoa. Isto nunca me saiu da cabeça e eu fiz de tudo pra esquecer aquele dia. Entrei para a polícia, rezei, me isolei e até tentei me suicidar de tanto desespero, mas um dia, eu vi um crime tão horrendo nos arredores de Lisboa que minha visão de mundo mudou. Pois eu não acredito que ninguém em sã consciência poderia realizar algo tão torpe, tão demoníaco se não fosse guiado pelo próprio capeta ou um de seus seguidores infernais. Pena que nunca pegamos o responsável. Nessa época eu entrei para a Igreja com o intuito de caçar todas as bruxas e demônios deste mundo e adivinha só quem é a bola da vez? A anos eu te persigo sem encontrar nada, mas dessa vez tu vai me contar tudo e se arrepender de seus pecados demônio desgraçado, disse Jaque.

— Eu quase não me agüento de tanta vontade de contar tudo o que fiz, seu padreco de merda, e matar a minha família, inocente, só mandará você para o mesmo lugar que eu, o inferno! Lá nos encontraremos e eu terei o meu acerto de contas. Só para começar e te tranqüilizar, parte do motivo se sua entrada na igreja foi eu quem te deu! Você me deve essa, disse dando uma gargalhada. Todas aquelas mulheres, mortas em Lisboa, foram mortas por mim e com um toque especial para a sua adorável esposa!

Jaque perdeu a compostura, pois ele não havia dito uma palavra sequer a respeito de sua mulher ter sido uma das vítimas, e deu três voltas na manivela de meu braço esquerdo. Não foi o suficiente para quebrá-lo, já que o mecanismo movimentou o meu antebraço para baixo, enquanto a parte superior do braço ficou presa e voltada para cima. Nessa hora ouvi um estalo vindo do meu cotovelo e isso me deu um baita susto, principalmente quando vi o brilho em seus olhos. A dor só veio em seguida. Naquele momento eu percebi algo extraordinário: Eu havia transformado um padre da Igreja católica em um demônio como eu.

O ocorrido me confortou bastante, tanto que eu sorri quando ele me espetou com uma agulha comprida, através de um dos furos laterais existentes na estrutura de madeira da máquina. Sorri mesmo vendo que a agulha havia atravessado meu antebraço esquerdo e que o sangue quente havia começado a escorrer pelos meus dedos.

Eu tinha certeza que aquele seria o meu último dia na face da Terra, mas eu nunca daria o gostinho de vitória para o meu carrasco. Eu sentia uma sensação de prazer a cada comentário que me era dito e a cada pergunta feita, pois conseguia ver o ódio crescente em seus olhos. Nesta hora, a idéia de que não conseguir a minha confissão já deveria estar passando na cabeça do Padre Jaque.

— Peça perdão a Deus, pecador dos infernos, disse o inquisidor, confesse seus pecados que acabarei com seu tormento, pois sua dor é algo que deverá ser lembrada até o último suspiro, como penitência por seus pecados. Mas, se confessares eu juro que não irás para a fogueira. Assassino sujo e infeliz, peça perdão e redima-se de seus pecados em nome de Deus — gritou Jaque mais uma vez enquanto girava uma das manivelas e me deixava em pé.

— De nada adianta me torturar, eu jamais me curvarei a você seu pecador travestido em membro da igreja. Gritarei a todos os ventos todos os seus pecados e serás tu torturado nesta mesma mesa que me encontro, pois é igual a mim, um assassino descontrolado.

Os outros padres ficaram estarrecidos com as minhas palavras, mas nada fizeram, pois essas atitudes por parte dos torturados eram comuns até demais, soavam como um último fio de esperança. Esperança essa que nuca chegaria.

Após meu ataque verborrágico senti uma dor tão intensa que evacuei em minhas calças. Eu achava que a sessão ficaria pior, mas nada como aquilo. Talvez a fogueira fosse uma morte mais rápida e menos dolorosa. Quando consegui abrir meus olhos eu o vi com uma marreta de madeira, que deveria pesar uns três quilos, nas mãos, pingando sangue. O safado havia martelado os meus dedos do pé esquerdo.

— Arrependa-se disse ele!

Respirei um pouco me concentrei, cuspi no chão e ri. Foi somente isso que fiz antes da nova martelada. Nesta hora eu acho que a dor não mais me afetava, eu estava entorpecido de tanta adrenalina que corria em minhas veias. Até pensei estar delirando quando vi aquele outro padre encostado no fundo, olhando direto nos meus olhos. Um olhar frio e penetrante, daqueles que somente alguém como eu poderia reconhecer.

Em seguida, realmente achei que iria morrer, pois vi algo inimaginável. O padre sacou um bastão de madeira e veio em minha direção, só que no meio do caminho acertou Jaque e em seguida os dois discípulos que o acompanhavam. Quando finalmente veio em minha direção, não vi mais nada.

Quando acordei estava deitado em uma cama muito bem arrumada e confortável, forrada com lençóis brancos. O quarto era simples, como se fosse de um franciscano, e todo pintado de branco. Havia apenas um crucifixo pregado na parede e uma bíblia em cima da mesa de cabeceira, junto a um copo de água. Levantei e fui à janela ver onde estava. De lá era possível se ver os jardins do mosteiro e a horta também. Uma paisagem bem bucólica e tranqüila. Por um breve segundo pensei estar no Céu e mal acreditei quando a porta abriu. Fiquei esperando por anjos, nem sei o porquê, dada a minha vida de crimes e mortes. Mas como já era de se esperar o inferno veio até mim e apenas o padre e seu bastão estavam me encarando naquele momento.
Na seqüência, parece que saí do transe e caí na real. Meu corpo estava muito dolorido e meu pé enfaixado. Logo me lembrei de tudo que havia passado e foi nessa hora que um pensamento me veio a cabeça: iria começar tudo de novo.

Sentei na cama, tomei um gole de água e disse: vamos nessa que já estou pronto, ao mesmo tempo em que aquele ser me encarava, impassível e sem nem ao menos conseguiu sorrir de minha desgraça.

— Fique calmo e relaxe, meu garoto. Disse o padre. A partir de agora você esta em minhas mãos e começará uma nova vida, só que agora com um propósito. Descanse e durma que nossas enfermeiras irão cuidar muito bem de seus ferimentos. Conversaremos de novo mais tarde. Não havia mais o que fazer, pensei. Deitei na cama e dormi, esperando que um pouco de paz e sossego guiassem o meu sono.

O padre Jorge me acordou e logo em seguida me arrancou da cama com pontapés e murros em minhas costelas. Eu pensei que estava encrencado e tentei revidar. Apenas consegui levar mais pancada. Apanhei tanto que desisti de tentar me levantar. Foi nessa hora que mais dois me pegaram e jogaram por um buraco no chão em cômodo escuro e bolorento. Lá encontrei mais dois presos, no mesmo estado que eu.


A cela era fria, escura e muito suja, pois não havia banheiro. As paredes de pedra retinham umidade e a falta de sol e de iluminação apropriada fazia com que o mofo crescesse a olhos vistos. Fora isso existia ratos, baratas e morcegos, voando e cagando em nossas cabeças quando dormíamos. Pelo menos teríamos comida caso necessário. Fora alguns buracos nas paredes não havia porta no local, a única saída era por um buraco no teto, de onde fomos jogados e por onde saía o barril de excrementos. O problema era que antes dele se encher ninguém perderia tempo tentando retirá-lo dali.

A comida era jogada pela abertura uma única vez ao dia e normalmente era um pão duro ou um pouco ce comida feita com restos estragados das refeições dos nobres ou de quem quer que fosse.
Pensei comigo que aquilo seria a próxima fase da tortura, mas isso mudou quando um dos presos me ajudou a sentar e perguntou o que acontecera comigo para ter sido jogado ali junto deles.
Após me apresentar perguntei o que eles faziam ali. João Marques, o mais forte dos dois, um cara alto e magro, devido ao confinamento e as seções de tortura, me disse que havia sido preso por ter matado dezessete pessoas. Seu rosto estava marcado pela vida sofrida. Ele aparentava uns quarenta anos, mas não tinha mais que trinta e três. Carlos matara um pouco menos. Naquela época alguns atos eram tidos como coisa do Diabo e a pena era a fogueira.

Entendi então que éramos três malditos assassinos presos no fundo de uma masmorra, esperando ser esquecidos ou torturados pelos inquisidores, o que também resultaria em nossa morte, mas o futuro provaria que nem tudo seria o que estava parecendo e que algo novo poderia surgir.

Fiquei ali por três meses, parece que cultivando meu ódio e meu rancor. Eu sabia que uma hora ou nós nos mataríamos ou morreríamos, porque esquecidos já havíamos sido há muito tempo. Por mais incrível que pareça, ficamos os três ali vivos e esperando.

Um dia a escotilha se abriu e o Padre Jorge apareceu e disse: hoje se Deus quiser, e nós acharmos que vocês merecem, sairão daqui livres e vivos.Nessa hora, fiz um juramento pra mim mesmo que se eu saísse dali vivo, pegaria aquele padre desgraçado que me torturou, caso ele ainda estivesse vivo, e esse engraçadinho aí. Depois passaria uma semana com eles, me divertindo.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Conto: Tiragosto saboroso

Faz exatas nove horas que estou aqui, às vezes eu faço isso, ficar observando o dia se acabar e a noite surgir. O sol se pondo em Brasília é sem dúvida o mais bonito que já vi, o céu é inundado por raios avermelhados, como se estivesse em brasas e o próprio inferno se abrisse dando uma dica de que tempos piores estão por vir. Ele só perde para a Lua que nasce gigante, vermelha e tentadora como o sangue de uma adolescente, trazendo o esplendor de mais uma noite cheia de surpresas.

Ao longe, nas alturas, vejo pequenas asas negras sobrevoando o Congresso Nacional, voando em círculos, observando calmamente o movimento desordenado das pessoas e os carros parados no engarrafamento. Demônios alados, carniceiros vorazes, camuflados pela distância em urubus. Por horas, de cima do edifício do Banco Central, o ponto mais alto da cidade, observo o movimento e fico imaginando se o mundo realmente sairá dos eixos e se nós, os seres das trevas, um dia decidiremos atacar os humanos. Há séculos temos vivido um equilíbrio frágil, disfarçados na escuridão, mas presentes em todos os lugares.

As conversas que escutei nos últimos dias dizem que um grande grupo se prepara para quebrar o balanço. Infelizmente esta situação vai gerar o caos e uma possível guerra poderá ocorrer. A minha preocupação é que apesar de sermos muitos, os humanos são infinitamente mais numerosos, e diferente de séculos atrás, estão mais preparados e conscientes de seu poderio de ataque e defesa. Possuem mais armas que nós e em pouco tempo podem nos subjugar. Tenho que pensar o que farei, qual partido devo tomar? Esta talvez seja uma das minhas decisões mais difíceis desde que fugi da Europa e vim para o Brasil.

De minha posição, eu vejo com clareza o caos que se encontra a humanidade, banida de compaixão e repleta de violência e corrupção. Os humanos se mostraram, senão iguais, piores que nós. Talvez seja esta a hora de uma virada, uma limpada geral nesta sujeira. Talvez tenha chegado a hora de parar com a evolução desenfreada do conhecimento humano e com ele o risco de sermos descobertos. Talvez esta seja a janela da oportunidade para jogarmos o mundo no caos novamente e tomarmos o poder que nos foi usurpado.

Só sei que estas questões são complexas e devem ser estudadas mais profundamente. Temo apenas que não tenhamos tempo para isso. Tentarei marcar uma reunião com o conselho para amanhã à noite a fim de discutirmos o que fazer. Penso que talvez seja melhor continuarmos como estamos, vivendo na surdina dos acontecimentos e nos banqueteando da luxúria e cobiça desse povo medíocre. Para que jogarmos tudo fora? Já não basta praga que está nos consumindo como uma lepra, ainda nos arriscaremos a isso, perecermos sob fúria implacável da índole humana?

Se existe uma coisa que eu aprendi nestes últimos duzentos anos é que os humanos são mais perigosos do que pensamos e se estiverem em perigo, sua fé inabalável na ajuda divina os levará a limites extremos. Se bobearmos, no fim, nada conseguirá fazê-los desistir de sobreviver, e nada, nada mesmo os fará aceitar uma vida de escravidão e sofrimento. Eu sei que uma coisa está bem clara em suas mentes: Eles vieram para dominar o mundo e aqui ficarão, sob o comando e a anuência de seu Deus.

Perdido em meus pensamentos, enquanto apreciava a vista da cidade agora já iluminada pelas luzes dos edifícios, das lojas e pelo movimento frenético dos carros, vi ao longe, uma pequena jovem andando em meio aos prédios e ruas já desertas do Setor Bancário, sozinha e descuidada, provavelmente alguém que havia trabalhado até um pouco mais tarde e procurava seu carro estacionado em algum lugar. Uma vítima perfeita para àqueles que vivem da morte. Uma alma desguarnecida de cuidados e, com muita sorte, repleta de ternura e sentimentos puros. Um prato cheio para o grupo que a estava cercando.Eles se seguem pelas laterais dos prédios, grudados nas janelas, como feras a caça de sua presa. Um passo de cada vez, bem devagar acompanhando o caminhar despreocupado da menina. Em cada esquina, seus movimentos aceleravam, de forma que somente olhos treinados e potentes podem enxergar. Seus movimentos são tão rápidos que parecem sombras negras, esticadas pelo vento da noite. Este ataque, bem no início da noite, é um sinal claro de que não estão mais preocupados em serem notados. Eles irão se alimentar de seu corpo frágil, tomar seu sangue e comer sua carne tenra. Isso é um péssimo sinal e eu não posso permitir que ocorra.


A lua escarlate parece abençoar a carnificina que está por ocorrer. Fico de pé, no topo do prédio, e sinto minhas veias pulsar descontrolas, minha pele queimar e meus olhos se tornarem vermelhos com o sangue que circula acelerado por todo o meu corpo. É como se uma descarga de adrenalina gigante houvesse me invadido. Nessa hora, após uma respirada mais profunda, decido pular. Dou um passo para frente e salto, de pé, olhando os 35 andares de queda livre. Pouco antes de tocar o chão, encolho as pernas, giro, apoio os pés nas janelas e empurro para frente, giro de novo e então estouro o teto de uma Ford Ranger. Nesse momento começo uma corrida desenfreada para tentar alcançar a moça. Nem me dou ao trabalho de olhar para trás para ver se os seguranças do prédio me viram.

Eu podia sentir seu perfume a uma quadra de distância e ver sua aura emanando uma cor rosa clara, pureza. Ela era baixa e magra, com o corpo de uma menina de dezesseis anos. Seus cabelos negros e compridos balançavam durante enquanto andava e eram jogados bem devagar para trás pela brisa quente da noite. Tenho que alcançá-la a todo custo.Em meu a minha corrida pude vê-la chegar na porta de seu carro, um pequeno e velho Uno Mille.
Ela então pareceu ouvir algo em suas costas, como um suspiro bem leve, trazido pelo vento. Olhou para trás mais que rapidamente e assustada, com o coração disparado, não viu nada. Respirou aliviada e olhou de novo para a porta de seu carro e um estrondo enorme foi ouvido, uma pessoa havia caído no teto do carro e os vidros se estilhaçaram, jogando cacos por todos os lados. O alarme disparou na hora e ela caiu sentada e horrorizada com o susto. Nenhuma palavra saiu de sua boca, pois quase desmaiou. Antes que pudesse colocar seus pensamentos em ordem, percebeu que algo estranho estava ocorrendo. O corpo em cima de seu carro começou a se levantar e sombras negras passavam em volta de seu corpo.
O corpo se levantou bem devagar, ficando primeiramente de joelhos e depois em pé com a cabeça abaixada. Usava roupas largas como uma batina de padre, rasgadas e de cor negra com costuras marrons nas laterais. Parecia um mendigo. Sua cabeça ainda estava coberta pelo capuz, mas dava para ver alguns fios do cabelo comprido e ensebado por baixo. O cheiro da praga penetrou minhas narinas e pude então ouvi-lo falar
— Silêncio menina e observe o que se passa ao seu redor.
Quando o capuz foi jogado para trás ela, estática, começou a gritar, a todos pulmões. A imagem do rosto daquele ser, de pé em cima do carro, era a própria face do inferno, seus dois olhos estavam costurados com barbantes e por todo rosto haviam pústulas infeccionadas e purulentas. O sangue escorria de alguns pontos. Em seguida ele desceu do carro como um raio e aproximou seu rosto bem perto do dela, seus lábios quase se encostaram. O hálito fétido era insuportável e suas palavras dolorosas.
— Não resista! Hoje você será nossa.

Em seguida ela viu os outros monges em sua volta, parados e sorrindo. Mais uma vez gritou, só que desta vez teve seu suplicio sufocado por um beijo apodrecido dado pelos lábios leprosos de seu algoz. Seus olhos permaneceram abertos como se chocados com o horror que se passava e então quando achou que iria desmaiar foi banhada por um jato mal cheiroso de sangue, que lhe molhou o rosto. Percebeu que um daqueles monstros havia sido cortado ao meio e suas entranhas estavam espalhadas pelo chão e seu sangue havia espirrado em jatos por todos os lados. Os outros dois procuravam ao redor o que havia ocorrido e assustados desapareceram em meio a uma nuvem de fumaça preta. Somente aquele que a segurava ficou parado, observando e tentando entender o que havia acontecido.

Ela então me viu, em cima de outro carro, segurando uma faca em cada uma de suas mãos e olhando fixamente para aquele monstro desfigurado. No outro segundo, como num piscar de olhos, viu o monge com as duas facas enfiadas em sua cabeça e um filete de sangue saindo de seus olhos costurados. Ela respirou profundamente e começou a chorar, agradecendo e colocando a sua cabeça em meus ombros.

— Por que choras menina?
— Porque você, meu anjo, vindo dos céus, me salvou e me deste a vida de novo.
— Pobre menina — falei olhando bem dentro de seus olhos — enganada você está.

Em seguida passei a faca em seu pescoço e a deitei bem devagar em meu colo, enquanto sugava o seu sangue, doce, jovem e muito saboroso pensei na reunião de guerra que teria com o conselho de vampiros. Ela então arregalou os olhos e tentou falar algo, mas suas palavras não mais saíram.